NOVA ARTICULISTA: Mariana Cepeda de Mendonça - Violência doméstica em meio à COVID-19 – e o que empresas e influenciadoras poderiam estar fazendo.

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A quarentena não tem sido fácil para ninguém, mas, para as mulheres, ela se tornou um desafio duplo. A pandemia do coronavírus fortaleceu uma outra pandemia que enfrentamos há muito mais tempo: a da violência doméstica. Mais de um terço das mulheres no país já foram afetadas por ela.

Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência revelou que pelo menos 36% das brasileiras já sofreram violência doméstica. Além disso, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registra um novo caso de violência doméstica, a cada dois minutos.

Dados da Organização das Nações Unidas mostram que a quarentena agravou o problema em todo mundo. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que, no Brasil, a situação não foi diferente: o atendimento de casos de violência doméstica pelo 190 cresceu em diversos estados. No entanto, o número de registros de boletins de ocorrência diminuiu para crimes que exigem a presença das vítimas na delegacia, um indicativo de que há ainda outra adversidade diante das mulheres: a dificuldade em encontrar ajuda.

Uma série de medidas e projetos em prol da segurança das mulheres durante a quarentena já estão em curso. As iniciativas governamentais, que podem ser bastante questionadas, assim como as que partem de instituições não governamentais, são vitais para mitigar as consequências dessa crise. Mas, além disso, é essencial a divulgação dessas iniciativas e a difusão de informações relevantes e precisas referentes ao problema que estamos vivenciando.

No estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, fica claro que muitas mulheres não percebem que estão sendo vítimas de violência, a qual não se limita apenas a agressões físicas. Outras, estão tão frágeis e com tanto medo, que não conseguem escapar sozinhas da situação. Além do apoio de amigas e de familiares, elas precisam de conscientização, informação e encorajamento.

Diversos veículos de comunicação, grupos de pesquisa acadêmica, grupos ativistas e ONGs têm tentado cumprir esse papel. Cidadãs e cidadãos também vêm contribuindo por meio de suas redes sociais para o compartilhamento de projetos em defesa de mulheres em situação de vulnerabilidade, canais de denúncia contra a violência doméstica e informações importantes acerca do tema.

Mais empresas privadas poderiam engajar-se na causa e ajudar a conscientizar os seus milhares – por vezes milhões – de seguidores. O mesmo vale para celebridades e influenciadoras e influenciadores digitais. Mesmo os chamados microinfluenciadores podem fazer uma grande diferença neste momento turbulento, ao conscientizar e informar potenciais vítimas de violência doméstica e pessoas ao redor dessas mulheres — incluindo vizinhas e vizinhos, que podem ser agentes de denúncias essenciais. Até quem tem algumas poucas centenas de seguidores pode ser responsável por proteger uma vida das estatísticas cada vez mais graves de feminicídio.

Em vez de reclamar das tarefas domésticas que estão sendo obrigadas a fazer pela primeira vez no ano (na vida, em alguns casos) ou ostentar o luxo de uma quarentena à beira da piscina, muitas celebridades das redes sociais poderiam usar a sua enorme influência de forma positiva neste momento tão negativo. E tudo indica que é uma boa ideia começar a fazer isso.

Uma pesquisa do grupo Consumoteca mostrou que, com a pandemia, 54% dos brasileiros passaram a rever quais influenciadores querem seguir ou continuar seguindo. Além disso, o Brasil já mostrou que está mais exigente diante de atitudes irresponsáveis na Internet, praticadas por marcas ou pelos reis e rainhas do Instagram – haja vista a situação complicada em que se meteu a blogueira fitness Gabriela Pugliesi. Não está na hora de cobrarmos ainda mais responsabilidade da realeza digital?

Imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/aborrecido-angustia-angustiado-ansioso-568027/

Mariana Cepeda Mendonça é mineira, feminista e fascinada pela arte da narrativa. Jornalista formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes pela Universidade do Porto, atualmente trabalha como redatora e tradutora.

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