Jornalismo esportivo: o compromisso com a notícia. Por Amanda Hamermüller.

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Embora não tenha sido criado no Brasil, o futebol conquistou uma grande importância no âmbito nacional. Aqui, futebol e sociedade são duas realidades que se fundem constantemente. É por isso que o esporte atua como um dos principais fenômenos socioculturais do país, capaz de influenciar diversos setores da nossa vida social – econômico, político, cultural, social, entre outros.

Consequentemente, as tragédias que envolvem este meio ganham repercussão mesmo entre os que não acompanham futebol assiduamente. Um dos grandes exemplos foi o incêndio que atingiu o Centro de Treinamento ‘Ninho do Urubu’, do Flamengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e completou um ano anteontem. O sonho de 10 jovens – todos entre 14 e 16 anos – que jogavam nas categorias de base do clube carioca e morreram na tragédia, foi interrompido.

Ao longo do ano de 2019, o Flamengo apresentou, dentro dos gramados, um desempenho histórico. Em um intervalo de dois dias, conquistou o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores da América, resultado da atuação de um time que vale mais de 500 milhões de reais. Já fora de campo, o clube ainda segue pendente com as famílias das vítimas, que estão brigando com o time rubro-negro na Justiça para obter indenizações pela tragédia.

Ainda no mês em que ocorreu o incêndio, o Ministério Público e a Defensoria Pública do Rio mediaram conversas entre o clube e os familiares. Em entrevista à VEJA, o defensor público Eduardo Chow afirmou que o clube se mostrou interessado em ajudar, porém, no momento do pagamento, começaram os problemas. Na época, eram solicitados um milhão de reais, mais uma pensão mensal de R$ 10 mil reais para cada família, porém o time não concordou e acordou o pagamento de R$ 5 mil reais mensais. Em dezembro de 2019, o Tribunal de Justiça decidiu que o Flamengo deveria dobrar a pensão para R$ 10 mil reais até que se chegasse a uma determinação judicial definitiva. Os outros 16 atletas que sobreviveram foram indenizados, mas uma cláusula de sigilo impede a divulgação de valores.

Na sequência, em janeiro deste ano, o clube dispensou cinco jovens que sobreviveram ao acidente. Familiares e jogadores ficaram confusos com a atitude do clube e agora buscam se reorganizar neste momento ainda delicado.

Para concluir o show de horrores, familiares das vítimas foram barrados ao tentar visitar o local no dia em que a tragédia completou um ano. Eles prestariam uma homenagem aos meninos. Com flores brancas e velas, apenas os familiares de um dos jovens entraram. Não havia um representante do Flamengo no local. Os funcionários alegaram que não foi feito uma solicitação prévia. Após cerca de uma hora e meia de espera, os presentes desistiram e foram embora do Ninho do Urubu inconformados. Antes, fizeram uma corrente de oração do lado de fora.

Diante disso, coloco para questionamento o papel do jornalismo esportivo neste contexto. É evidente que, não só neste caso, mas de uma forma geral, nós temos – no Brasil – um jornalismo esportivo pautado na estrutura midiática construída sobre alicerces econômicos e comerciais, buscando elevar a audiência, priorizando o entretenimento, informações sem relevância e abordagens superficiais. Recentemente, o tom humorístico tem ganhado força nas narrativas desta editoria. A jornalista Mariana Corsetti Oselame, na obra ”Fim da notícia: o ‘engraçadismo’ no campo do jornalismo esportivo de televisão”, afirma que este formato coloca de lado a informação propriamente dita e enfoca-se naquilo que pode fazer o consumidor sorrir, colocando em risco a notícia e arriscando uma das mais importantes qualidades da profissão: a credibilidade. Como já citei aqui, o futebol não é apenas diversão. O esporte consegue abranger diversos assuntos que guiam o jornalismo em si.

O ano que passou foi, de fato, produtivo e rentável para o Flamengo. O processo que cito pode explicar porque há, dentro da editoria, uma exaltação do clube e da sua atuação, em detrimento da busca e publicidade das informações que questionam, eventualmente, a responsabilização do mesmo na tragédia que ceifou a vida de 10 jovens atletas e a conduta do clube em relação a familiares e sobreviventes. Percebe-se a valorização do time nos veículos de comunicação e o grande interesse em informações exclusivas de contratações, movimentações financeiras e planos para o próximo campeonato. E é claro que os jornalistas não querem perder os seus privilégios perante os dirigentes e assessores para obter tais comunicados.

Concluo este texto lançando duas reflexões, tanto para quem produz notícias, quanto para quem as consome: neste jogo de egos em que o jornalismo geral desconsidera o jornalismo esportivo como – de fato – jornalismo, não seria o momento de este último mostrar os seus princípios? Até que ponto uma vida – ou dez, neste caso – valem mais do que quanto um clube irá desembolsar para trazer nesta temporada um grande nome do mercado da bola?

Amanda Hamermüller é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com experiência em jornalismo impresso (revista), rádio, assessoria de imprensa, design gráfico e mídias digitais.