Internet e uma nova dimensão do conceito de materialidade. Por Sol Oliveira.

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No meu primeiro artigo para o O.C.I. – e que veio a ser minha estreia no portal –, tentei trazer uma reflexão acerca das redes sociais como os novos tribunais da antiga Grécia. Não é de hoje que tenho o hábito de acompanhar esse chamado mundo virtual e suas inúmeras variações, mas sempre à luz das relações humanas e, mais precisamente, dos comportamentos que se criam ou se amplificam a partir delas.

Hoje, quero refletir um pouco sobre a internet com o desafio de estabelecer uma espécie de comparação com o conceito de materialidade.

Qualquer abordagem acerca de materialidade se inicia, a meu ver, com a definição conhecida de existência física da matéria, conceito básico do materialismo filosófico que explica a base da concepção de realidade a partir do reconhecimento da realidade concreta, aquela que existe fora do pensamento humano e de forma independente dele.

O desafio deste artigo é mostrar de que forma este conceito evolui e encontra eco no mundo virtual, digital, da internet.

O mundo virtual – como o próprio nome sugere – não é real, não podemos atribuir características materiais a um movimento que se constrói basicamente a partir do mundo das ideias, sensações e emoções – todas virtuais. A internet, ainda que com todo o respaldo material das tecnologias e inovações, continua sendo um mundo movido especialmente por ideias. Toda a construção da internet alimenta-se do pressuposto de que os chamados conteúdos existem e são produzidos a partir das necessidades emocionais dos seus usuários, ou seja, as ferramentas tecnológicas produzem resultados imediatos para as necessidades (informacionais) dos indivíduos, invariavelmente ligadas a emoções e desejos.

Se pensarmos que o conceito de materialidade busca explicar as relações humanas a partir da matéria, ou seja, de circunstâncias concretas existentes fora da consciência humana, conseguimos estabelecer uma primeira reflexão: a internet e seus inúmeros “produtos” existem a partir do pensamento consciente ou a partir de uma materialidade inconsciente?

E o que seria essa tal materialidade inconsciente?

Quando falamos de internet atribuímos a ela características imateriais, como que inconscientes de todo o aparato tecnológico (redes físicas, data centers, uma infinidade de satélites – e os onipresentes smartphones) que se desenvolveu ao longo de décadas e que lhe deu vida. Diz-se: “a internet é fria”, “a internet é boa”, “a internet é má”, “o poder da internet”, “a internet define padrões e modelos”, “a internet observa relacionamentos”, e por aí vai. São ações tipicamente humanas atribuídas a algo imaterial, algo que não se pode tocar, mas que existe de um modo material na concepção de cada indivíduo. Isso explica a naturalidade com que as chamadas inteligências artificiais se desenvolveram e encontraram campo fértil dentre seres humanos que já se acostumaram a lidar de forma emocional com algo tão imaterial quanto bits e bytes, e máquinas guiadas por algoritmos baseados em padrões de resposta que se encaixam perfeitamente…

Vamos para mais uma reflexão: um idealismo define os padrões da internet e seus inúmeros produtos, ou seja, toda a construção do mundo virtual se apoia num pensamento consciente?

Talvez, se levarmos em consideração que muitos dos benefícios da internet correspondem às necessidades reais dos indivíduos e representam uma evolução das formas de comunicação humana.

Por outro lado, podemos pensar que muitas destas necessidades são também criadas pelo aparato tecnológico que atribui senso e valor às coisas, despertando o desejo dos usuários, um padrão evoluído do conceito de “fetichismo da mercadoria” (Marx) em que a existência das coisas se sobrepõe à vontade humana.

Por fim, torna-se irrelevante afirmar que a internet mudou as nossas vidas para sempre e o objetivo deste artigo é tão somente provocar reflexões sobre o quanto essas mudanças se refletem nos modelos de trabalho dos profissionais de comunicação. A construção dos conteúdos e mensagens, seja no âmbito institucional ou publicitário, invariavelmente transitam na dualidade necessidade real versus necessidade criada, mas este é tema do próximo artigo.

Até breve!

Sol Oliveira é relações-públicas com especialização em Marketing. É gerente de Marketing e Comunicação na Tahto, professora universitária e palestrante em temas ligados a Branding, Cultura Corporativa, Mídias Sociais e Identidade Corporativa | Sololi0402@gmail.com