Felizes Para Sempre - SQN. Por Renata Quiroga.

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Prisão especial é o lugar distinto da prisão compartilhada. O contexto histórico marca os discursos com o tempero mais notável do seu caldo temporal, seja pelas erudições, seja pelos dialetos e seus guetos.

A epígrafe ‘felizes para sempre’ invadiu o último suspiro de infinitas histórias contadas às crianças e reproduzidas em futuras narrativas do mundo adulto. A mensagem de conquista da felicidade, anunciada pela frase, é imemorial. Já a gíria apresentada pela abreviação SQN é datada na atualidade, sendo que a distância que as separa não impede que a segunda desminta a primeira.

A infância é o cimento ainda fresco que permite que as pegadas de quem o pisou permaneçam evidentes por bastante tempo após sua secagem. Com essas marcas as crianças crescem junto aos valores moldados na sua tenra história para tornarem-se adultos reprodutores de peculiares signos e sinais.

A cultura dos contos de fadas comunicou aos indivíduos que, após os tempos infernais das perseguições e injustiças, o final da aventura traria o casamento de duas personagens principais: felicidade e eternidade. Essa dupla seria responsável por seu estado de plenitude e que sem ela, sem a associação que uma provoca na outra, não haveria sentido possível para a vida.

A contemporaneidade emprestou sua linguagem descolada ao dar o recado de que se vive feliz para sempre, só que não. A despeito das explicações atinentes a cada pensamento, parece até haver um certo consenso de que a finitude desbanca a eternidade. No entanto, a felicidade ainda é a grande vedete dançarina nos desejos dos consumidores.

A política necessária e restritiva de circulação nos espaços sociais, em prol da evitação da disseminação do Novo Coronavírus, produz importantes impactos emocionais. O ambiente de emboscada lá de fora conversa com a solidão e a planície dos dias iguais vividos no isolamento. Em tempos de pandemia, a busca pela felicidade, preferencialmente plena e eterna, torna-se altamente prejudicada.

Fecha-se a porta da rua. Entre o lado de lá e o lado de cá, a sociabilidade constituinte dos seres é fraturada. Abre-se então uma janela que permite debruçar sobre o conceito de felicidade.

A construção do sujeito feliz, logo de largada, já é atravessada pelo sequestro dos desejos pessoais a serviço de ideologias obreiras do mercado de consumo. O desejo modulado passa a desejar uma felicidade alheia que nunca lhe terá serventia. O sujeito cooptado de hoje foi aquela criança que entendeu felicidade amalgamada com eternidade. Eis então a chegada do sofrimento psíquico por perceber que ambos não existem para além do universo literário infantil.

Não há dicas colonizadoras da subjetividade estrangeira que dêem conta de resolver o mal contado, o mal entendido sobre a face ilusória e utópica da felicidade. Tais práticas da didática de ensinar como ser feliz em five steps são mais um produto mercadológico, de baixa qualidade, com destino certo ao primeiro lixo disponível.

A realidade, mais cedo ou mais tarde, avisa para a positividade tóxica que não adianta amputar a fala do infeliz, ela apenas existe e a qualquer hora aparece no cenário. O baixo astral das mazelas do mundo, também perde as máscaras quando um vírus contamina a todos, mostrando que a presunçosa individualidade nunca existiu fora da teia.

A realidade fofoqueira também conta para as pessoas que em algum momento do circuito a humanidade caminha entre o subúrbio e a metrópole. Não foram fabricadas saídas emergenciais de evitação do sofrimento. A existência, doa a quem doer, é regida sob os pilares da gratificação e da frustração.

Contudo, a análise sobre felicidade não é uma convocação ao desespero. A ideia é escampar do pensamento binário de felicidade versus infelicidade como pólos viscosos e não interpenetrantes. Entre a porta e a janela existe um entre-lugar: trata-se da provocação do entendimento sobre a impossibilidade da existência manter-se em estados permanentes nos quais situações difíceis não são convidadas.

Como a má e a boa notícia são as mesmas, temos a possibilidade de usar uma espécie de caixa de ferramenta humana, um kit de sobrevivência pessoal. O indivíduo pode perceber-se vigoroso a fazer a travessia pela vida contemplando os vazios, e os preenchendo de potência.

A felicidade divorciada da eternidade encontra-se com a contingência. O valor do encontro insere-se no entendimento da inutilidade da busca da felicidade plena. O estado permanente remete à experiência da inércia e ofusca o brilho da contingência no espaço que a vida se faz.

Não significa a ocupação do lugar único, na alegria ou na tristeza, como torcedores rivais que não podem dividir a mesma arquibancada. O encontro é o grande diretor desse espetáculo que, nos versos de um outro Vinícius, recita as bençãos do desencontro.

A vida, lá fora ou lá dentro, é agora. Viver é também a especial liberdade da prisão de ser feliz em completude. Felicidade pode não ser, obrigatoriamente, acordar cantando todos os dias da existência. O ritmo atravessa a estruturação psíquica, modula a intercadência necessária entre caos e ordem, e faz entender que o silêncio também faz parte da canção.

Renata Quiroga é psicanalista, coordenadora de Serviço Social, Psicologia, Psicanálise e Psicopedagogia – PSFP.