Desmilitar: o segredo do diálogo edificante. Por Manoel Marcondes Neto.

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Talvez este seja um texto utópico, ou mais uma mensagem numa garrafa – do náufrago ao Éter. Mas penso que vale a pena.

Em 2021, atingimos um nível nocivo de militância, acredito. Altura na qual o diálogo tem sido difícil ou impossível.

Diante da agudeza de posturas pré-estabelecidas, vimos desistindo de conversar… antes mesmo de tentar.

Se o nosso próximo está com a camisa de um “outro time”… nem chegamos perto.

“Mantenha distância segura das pessoas” – diz o onipresente painel ClearChannel dos pontos de ônibus – em estrita obediência ao padrão de comportamento na pandemia. Epidemia planetária de uma enfermidade que já atingiu mais do que corpos, mentes. E mente-se. Para ter ou manter amigos, para fazer sucesso ou meramente ser aceito.

Militância tem hora… e… lugar.

Será que na era das fake news nos tornamos “feike nós”?

É preciso – bem – pensar. E urgente. Pois a inteligência artificial nos vai levando inexoravelmente à preguiça dos surrogates – seres de pijamas que, descansando eternamente em casa, mandam para as ruas apenas seus plastificados avatares. E tudo “funciona”… bem… mal.

No filme Surrogates (Substitutos), do diretor Jonathan Mostow (2009), o personagem de Bruce Willis coloca seu avatar jovem para trabalhar nas ruas… enquanto envelhece num casulo eletrônico em casa.

OK, evita-se o distúrbio, a discussão, o bate-boca… Mas se está desistindo da troca humana tão necessária ao desenvolvimento dos espíritos.

Aliás, a doutrina espiritualista de Allan Kardec trata desse desenvolvimento de egrégora, de coletividade, do essencialmente humano, numa doutrina – cristã – fundada no diálogo edificante. Outro exemplo para inspirar: a – vitoriosa – atitude radicalmente não violenta pregada por Mohandas Gandhi.

Pode ser um até um “diálogo solitário”; uma conversa com um livro, com um guia, com um antepassado, numa floresta, no box do chuveiro, numa viagem de trem… ou de avião, com máscara.

Não importa. O papo edificante é necessário. Como o ar que respiramos. E se não nos dispomos ao seu exercício junto com o outro… nada mais resta a não ser viver em bolhas pré-nucleares ou em bunkers pós-atômicos.

O mal é a militância sem hora e lugar.

Dispa-se das certezas. Busque aprofundar o assunto do debate com o outro sem ideias pré-concebidas. É a condição para que o outro também o faça. Não espere isso “antes”… simplesmente aja assim. Não se incomode de ser tachado de “isentão” ou “murista”. Aliás, subir num muro é a primeira etapa para transpô-lo.

A possível conversa construtiva depende disso. E um futuro para a humanidade também.