Das cidades invisíveis. Onde a gente vive o que quiser viver. Por Maeve Phaira.

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Montevidéo, Uruguai. Somos brasileiros, mas quem mora na pontinha sul do país, entende espanhol, ou, no mínimo, tem facilidade para aprender. Somos também gaudérios, uma mistura de espanhol com índio, perfil mais comum no Uruguai e Argentina do que propriamente no Brasil.

A cidade tem no ar o cheiro da rambla, que costeia o Rio da Prata, edifícios esculturais, era vitoriana, ruas túneis, com os seus plátanos de folhas douradas, mutadas para o tom laranja-avermelhado, quando tapete de folhas outonais, e o Peñarol, claro! Nós, os gaúchos, temos o hábito de fugir para lá, todos os anos, uma espécie de visita familiar, onde a comida servida tem o cheiro da infância, e arde no fogo das parrillas.

A partir de abril, manhãs e noites – geladas – que aquecem o coração de quem gosta de frio (eu gosto), uma opção que fiz já na minha infância. Talvez, antes mesmo, quem sabe, ela, a opção, tenha vindo no pacote de meu DNA, não sei. E tem uma brisa, que pode ser também um vento, muito forte, que eu adoro sentir na alma. Uma espécie de sensação Bibiana, do livro ‘O tempo e o vento’, de Érico Veríssimo, própria da nossa gente, que nos acompanha por onde quer que se vá. É quando o vento canta, ah… e quando o vento canta, cortante, o tempo não passa. Instante que me acalma, e me fortalece naquilo que sou. O vento passa, eu montanha.

Então, Montevidéo é uma incógnita para mim, compreendida entre os nossos pampas, e também nos meus detalhes. A gente daqui nunca sabe de que lado está. Mas, uma coisa é certa, aqui, ou do outro lado, somos hermanos.

Um dia descobri que somos palavras… E que carregamos um dicionário dentro de nós. Maeve Phaira.