Conversa fiada. Por Bárbara Villa.

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Quando Mihaly Csikszentmihalyi encontra Paulo Henrique Amorim.

Eu estava revisando uns textos para meu elaborar meu pré-projeto de mestrado, quando reencontrei um artigo (fenomenal, diga-se de passagem) do Mihaly Csikszentmihalyi. Esse psicólogo húngaro conceituou o “estado de fluxo” ou momento em que estamos envolvidos em uma atividade onde nosso nível de habilidade e o nível de desafio se encontram em um equilíbrio óptimo, criando um estado de concentração relaxada, que ele chamou de flow. Essa contribuição era muito útil para a abordagem que eu estava propondo, mas fiquei insegura pensando que eu teria de pronunciar o seu nome. No YouTube, encontrei mais de um vídeo explicando como dizer o seu nome, que eu repeti em voz alta algumas vezes. Mas o que me ajudou mesmo foi um texto escrito, em inglês, que simplificava: me high, cheek send me high.

Enfim, no dia seguinte, 20 de outubro de 2021, o algoritmo, familiarizado com minhas buscas recentes, indicou-me a matéria comunicando do falecimento desse verdadeiro gênio da Psicologia, que produziu muitíssimo.

Senti um certo arrepio metafísico em imaginar que no seu último dia de vida eu fiquei repetindo o seu nome. Desejando conhecer mais sobre a vida que deu espaço para tantas obras, soube que ele foi criança durante a segunda guerra, que o xadrez o redimiu de seus horrores, e que ele assistiu acidentalmente a uma palestra de Carl Jung sobre discos voadores. O lugar onde ele nasceu já pertenceu a pelo menos cinco países. Entre as reportagens que li, me deparei com a seguinte citação dele: “às vezes uma simples palavra é suficiente para abrir uma janela para uma nova visão de mundo, para que a mente comece uma jornada interior”.

Estou lendo com meus filhos a coleção completa de contos dos irmãos Grimm, em uma publicação da década de 1950, em oito volumes, herdada de minha avó. É a terceira geração de leitores destes mesmos exemplares. Nessas histórias, muitas das quais são recheadas de racismo, machismo e misoginia – vá lá, com episódios esporádicos de redenção destes martírios -, em vários episódios faz-se referência ao ato de fiar. E foi nessa palavra que eu embarquei.

Não deve ser coincidência, eu sou uma artesã dos fios, e também minha avó, de quem eu herdei a coleção. Me sentia diretamente identificada com as fiandeiras e tecelãs de Grimm.

Esta minha avó (Eneida, o nome dela) tinha um ditado sobre as “vantagens” de ser mulher: mijar sem pôr a mão, transar sem ter tesão e falar sem ter razão. Quando dizemos conversa fiada, estamos falando de conversa de mulher. Conversas de mulheres trabalhando. Trabalhando com a mão e a com a voz. O trabalho da mulher é invisível, e sua voz também. É conversa fiada. A conversa pode ser coletiva, socializada, assim como o trabalho, e também pode acontecer no silêncio dos pensamentos concentrados em uma atividade. Narrativas, imagens, uma viagem interior.

Me imaginei fazendo uma viagem no tempo, 300 anos seriam suficientes, e fazendo a seguinte afirmação: “no meu tempo, as mulheres não fiam”. Qual não seria o choque, a estupefação de quem passava horas, dias, uma vida inteira neste mister. Imagino o questionamento: “Então, quem fia?”.

Não fiamos mais. Máquinas liberaram nossos corpos da servidão de um serviço manual maçante e repetitivo, assim como hoje as máquinas definem o “fio” que vamos seguir com a mente, com a nossa intenção. Mão, voz e olhar. Ao contrário do que poderíamos supor, o tempo em que não é necessário fiar é o mesmo onde somos soterrados por grandes quantidades de papo furado.

P. S.: Como um fio puxa o outro, gostaria de deixar registrada a minha homenagem ao Paulo Henrique Amorim e seu blog Conversa Afiada. PHA sabia costurar pautas como ninguém, e desde sua passagem, em 2019, eu sinto uma certa orfandade jornalística.

Imagem: La dernière Fileuse de mon village, 1881, by Guillaume Fouace – Own work. June, 2008, public domain.

(LINK – https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4443611). Mulher fiando – Museu lakenhal.

Bárbara Villa é jornalista (UFF), tradutora (UGF) e pedagoga (UBC).