Comparação na prática: uma empresa transparente e outra que não investe em comunicação corporativa.

Share Button

Maria Aparecida e Reginaldo são casados e trabalham em empresas próximas, mas em diferentes setores. Ele é operador de máquinas na área automotiva e ela está quase sendo a chefe do almoxarifado, em uma fábrica de peças. O que é muito diferente é o grau de confiança que cada um tem no seu gestor direto e no engajamento com os valores da empresa em que trabalham.

Reginaldo sempre é muito bem recebido pelo pessoal do sindicato, que o conhece pelo nome, pergunta dos filhos e ainda divulga alguns cursos de aperfeiçoamento, dos quais ele participa sempre que pode. Na empresa, ele faz parte de um time do 2o. turno, é assim que ele se encaixa. Não tem ideia de quais são a missão, visão e valores da empresa. Parece que as frases estão em um quadro na sala de reuniões. O supervisor não tem muito tempo para dar atenção a isso porque o grupo é grande e ele tem muito serviço para passar. Quando precisa, este supervisor lê uns comunicados, rapidinho, antes de começar o trabalho, e todos seguem para seus postos de trabalho sem lembrar do que foi dito.

O grupo de WhatsApp entre os colegas é super-ativo, ali ele fica sabendo de tudo. O Carlão, que adora falar, conta as novidades do dia e, no almoço, eles trocam informações sobre salário, sobre suspeitas de um fulano que conta tudo para os gerentes, sobre problemas do transporte, entre outros. Outro colega lembrou também que ninguém foi à confraternização do time, pela redução de acidentes, no dia anterior, porque o Carlão esqueceu de avisar todo mundo. No final, a conversa sempre termina no mesmo assunto: as demissões devem começar em breve, porque parece que o negócio não vai bem. Mas ninguém sabe ao certo se isso é verdade; não confirmam, nem desmentem.

Já na empresa da Maria Aparecida o cenário é um pouco diferente. No caminho para o vestiário, tem o mural, onde ela se informa sobre eventos da empresa, reconhecimento de colegas, avisos sobre os benefícios e até de um curso de capacitação para mulheres de que ela pode participar. Todos os dias, antes de começar o trabalho, sua supervisora junta o time, explica as metas, chama um por um pelo nome, pergunta sobre o dia anterior e retoma o que é esperado para o dia. A supervisora sempre passa uma mensagem diferente sobre segurança no trabalho, traz alguns exemplos de comportamento seguro, pergunta sobre dúvidas, faz alguma brincadeira para descontrair, lembra que estará disponível para dúvidas e reforça que todos juntos são mais fortes, que isso faz parte dos valores da companhia. Quando tem um tempo, a Aparecida acessa o celular que tem um aplicativo de rede social interna, dá uma olhada nas notícias do dia e, às vezes, faz postagens, como aquela da foto do reconhecimento que recebeu do time no dia em que completou três anos de empresa – até o diretor comentou!

Nas últimas reuniões gerais, ela ficou sabendo os resultados da empresa, pelos gerentes, e entendeu quais são os planos para o próximo semestre. Logo chegarão novos sócios argentinos e, por isso, resolveu começar um curso de espanhol e tem esperanças de crescer na sua área. A supervisora, em conversas particulares, sempre dá dicas, alinha expectativas e até lembrou à Cida que a empresa paga 50% de cursos em que ela estiver interessada, desde que sejam relacionados à atividade que exerce. Por e-mail, a funcionária recebe o boletim com notícias semanais e deu entrevista na última edição para a moça da Comunicação. Saiu foto dela explicando os novos procedimentos para os serviços do almoxarifado; ela imprimiu e levou para mostrar aos filhos.

De acordo com os dois cenários descritos, não é difícil imaginar qual deles está entusiasmado com o serviço e quem tem uma relação de confiança com os gestores e sobre as informações repassadas.

A empresa do marido não dá muita atenção aos canais de comunicação, nem sequer os tem estruturados, não investe no treinamento dos líderes e não se preocupa com os canais informais, não identifica os agentes ‘naturais’ de comunicação para treiná-los como líderes no fluxo da informação formal, mas investe muito em benefícios que eles nem sabem que têm direito. Assim, o sindicato se fortalece e a empresa perde oportunidades de engajamento e retenção de seus talentos.

Já no caso da Maria Aparecida, existe uma equipe de Comunicação que está atenta às necessidade dos funcionários. Informa o pessoal da fábrica pelos murais, treina suas lideranças para terem uma comunicação assertiva e não darem margem a ruídos e especulações falsas. Eles investiram em um aplicativo que enfraquece os ruídos causados pelos grupos de WhatsApp e também reconhecem os funcionários através dos canais de comunicação. Claro, para funcionar, precisa ser verdade mesmo, a empresa genuinamente mantém os funcionários informados buscando este engajamento. No caso do Reginaldo, os diretores da empresa também são preocupados com a transparência, informam os gerentes e pedem para que tudo seja repassado, mas sem processo, sem profissionais da área, eles ficam só na intenção. No final, os Reginaldos da vida, ficam atentos e esperando para ver se têm uma oportunidade nas empresas como a da Aparecida.

Deborah Sousa é jornalista formada e especialista com MBA em Gestão da Comunicação Organizacional.