Atenção! Temos um elefante na sala... E agora? Por Luis Vasconcelos Dias.

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Guião para uma aulinha ao estilo Tele-Escola!

O mundo não pára. Como alguém disse, a Imprensa fêz de nós leitores. As fotocopiadoras tornaram-nos editores. A Televisão tornou-nos espectadores. O Digital está a (tentar) fazer de nós comunicadores… E o desafio que a globalização nos coloca sugere que procuremos um equilíbrio estável e saudável entre aquilo que é a preservação de um sentimento de identidade, casa ou comunidade e fazer o que ainda não foi feito! (Bem o diz a canção de Pedro Abrunhosa e Ivete Sangalo…).

E se é verdade que a pandemia de Covid-19 fêz de (quase todos) nós cientistas e epidemiologistas formados à pressa, ainda assim julgo ser útil lembrar conceitos básicos, para que cada um possa entender um pouco melhor os modelos de trabalho e de pensamento dos cientistas e clínicos e assim melhor avaliar as decisões de quem tem o poder executivo.

A Epidemiologia estuda as causas que determinam a ocorrência e distribuição das doenças na população. E não existe apenas esta forma de as estudar. A Biologia, Bioquímica e Imunologia estudam-nas a nível molecular. A Anatomia Patológica fá-lo a nível dos tecidos e órgãos. Depois temos os clínicos que avaliam o impacto das doenças a nível individual, nas pessoas. E eis-nos no mundo da Epidemiologia sempre que o foco é a população no seu conjunto. Mas sabemos também que a descrição de uma doença usa três variáveis – o hospedeiro (a pessoa que a contrai), o agente (bactérias, vírus, fungos e alguns outros físicos ou químicos) e o ambiente. Por vezes identifica-se um quarto fator – o vetor – o elemento que transporta o agente (insetos, mosquitos entre outros animais).

Quanto à resistência do hospedeiro – elemento vital que determinará a capacidade de resistir ao agente – sabemos que depende desde logo do genotipo da pessoa, do seu estado nutricional, sistema imunológico e comportamento social. Também a importância do ambiente pode ser vital e relembro aqui um exemplo básico: restaurantes com condições sanitárias precárias que potenciam a probabilidade de contrairmos infeções por Salmonella. Já todos ouvimos falar disto, eu sei. Mas será que a perceção deste risco acompanha-nos no dia-a-dia? E já avisámos os mais novos ?

Então e quando estamos perante uma ‘nova doença’? Quando assim é, temos os registos de experiências anteriores, as metodologias, as técnicas (de investigação, de tratamento de dados, de produção de conhecimento…), as tabelas, guidelines, o critério clínico e pouco mais. Tudo pode voltar ao estadio de desconhecimento até que se consigam novos dados científicos sustentáveis. Só então será possível desenvolver novas hipóteses sobre os fatores causais e então sim introduzir medidas concretas para prevenir novos casos de doença. O fator ‘tempo’ será tanto mais crítico quanto maior a morbilidade ou letalidade provocada pelo novo agente.

Fica agora um pouco mais claro porquê não é possível nem sensato, dizer desde a primeira hora – com total certeza – o que fazer e como fazer para minimizar riscos do que poderá ocorrer amanhã. Simplesmente porque ainda é algo novo. Desconhecido!

Quando surgem os primeiros casos de uma nova doença – geralmente a partir do número de mortes ou casos graves identificados – estamos na fase inicial e focados em doentes sintomáticos. Mas sabe-se existirem doentes com sintomatologia menos grave ou mesmo assintomáticos. Por isso, quando estamos perante uma doença infecciosa – caso da Covid-19 – a infeção assintomática só pode mesmo ser descoberta a partir do achado de anticorpos em pessoas clinicamente bem ou pela cultura do microrganismo. É este processo da variação na gravidade da doença que se denomina de espectro biológico da doença ou fenómeno de iceberg. E tem vital importância em Epidemiologia porque se estudarmos exclusivamente os indivíduos sintomáticos estaremos muito provavelmente a produzir um quadro distorcido do real padrão de gravidade da doença. Porquê ? …simplesmente porque o número de pessoas com as formas mais graves da doença (que serão a ponta do iceberg) pode na realidade ser muito menor do que o número ‘real’ de pessoas com doença clínica ligeira ou mesmo assintomática.

Se pensarmos agora que todos os assintomáticos podem representar considerável risco de contágio e que existirão outros fatores de potenciação do risco de contaminação – como reduzidas condições higiénicas na habitação, ausência de etiqueta respiratória ou não cumprimento de distanciamento físico, por exemplo – estão criadas as condições para uma tempestade perfeita em termos de saúde pública.

É caso para gritar… temos um elefante na sala, e agora? O que fazer?

Bem, por agora o mais sensato parece ser mesmo continuar a lavar e desinfetar bem as mãos assim como objetos e utensílios usados por terceiros, respeitar uso de máscara e evitar os 3 Cs: Closed SpacesCrowded SpacesClose-Contact Settings! Percebemos agora melhor ‘como é o novo normal’?

Lisboa, agosto de 2020.

Luis Vasconcelos Dias – Pharma & Healthcare Consultant – lvd.labmarkconsulting@gmail.com