A guitarra do vizinho. Por Renata Quiroga.

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Massa é unidade constituinte da definição de peso, mas não representa sua completa explicação. A pandemia do Novo Coronavírus é, além de tantas outras coisas, uma exaustão dialética. Os outros inúmeros interessantes ou entediantes assuntos entraram em quarentena para ceder seus espaços no editorial sobre sintomas, transmissão, estatísticas e todo conteúdo sombrio dos relatos pandêmicos.

Esta coluna, contaminada pelo efeito monotemático, lança seu olhar para o episódio ‘Reabertura’ que marca uma temporada do surto de 2020. A história da humanidade já foi contada por vírus e bactérias em momento anteriores, por isso a Babel dos dias de hoje não é exatamente uma novidade.

Contudo, as informações absorvidas em tempo real refletem o ineditismo da experiência de nossa espécie com as partículas virais. Desde as primeiras conversas sobre suspeitas tosses na China, o planeta já acompanhava o clima de horror que se aproximava de cada país. A tecnologia em 2020 mostra que o mundo é um lugar de vizinhos. As notícias, à luz da velocidade, iluminam e atravessam os pensamentos que parturiam opiniões.

Entre tantos sintomas da Covid-19, o mal-estar ganha destaque por fazer continente para tantos conteúdos do sofrer humano. O tripé dos males trazidos pelo Novo Coronavírus apresenta o formato furacão, representativo dos impactos produzidos pelos ataques externos à existência humana.

O giro violento desse tornado articulou o sofrimento de devastação vivido pela crise econômica com a quantidade de mortes em decorrência da doença. Ambos realçam a condição de fragilidade do ser humano. O mal-estar eclode no indivíduo pela fúria de sua própria natureza e por seu furor face a decadência programada de seu corpo.

O processo de reabertura das cidades brasileiras chamou ao palco as mesmas personagens de sempre em figurinos que, marcadamente, vestem as diferenças entre seus atores.

Entra em cena o terceiro sofrimento que toca o solo no epicentro das relações humanas. Muitas palavras em textos difíceis de serem representados. Medo, angústia, pânico, significados distorcidos de histeria, ansiedade, isolamento social, pacto social, quebra-quebra.

O elenco tripartido entre heroísmo, pânico e confusão permite que o vírus e a realidade de sua contaminação sejam objetos de crença. Erroneamente, o elenco entende o evento trágico no qual o mundo vive como possibilidade de discussão. A relativização arremessa a bola do jogo da tragédia para fora do gramado da realidade, despindo o trabalho de enfrentamento dos poucos trapos de segurança ainda disponíveis.

Havia antes da reabertura, mesmo no estiramento auge da polarização, uma direção que flexionava no entendimento da função protetiva do isolamento social. O retorno às ruas estava previsto, mas a exacerbação da convivência como se não houvesse mais vírus circulante trouxe acirramento das relações entre os pólos.

O sentido do esforço exercido na quarentena até pelos que a fizeram compulsoriamente foi esvaziado, e os que entenderam que o isolamento era necessário viram suas austeras abdicações escorregando pelas areias lotadas.

O deleite delirante dos que se autorizam, em meio ao caos da pandemia, viver seus normais sem preocupação com o amanhã alheio, afronta os isolados. Há motivos de sobra para as discussões envolverem muito enraivecimento entre as pessoas.

E nessa quebra de acordo, o mal-estar assume a hiper disseminação viral na sociedade. Apesar das medidas de isolamento recrutarem exaustivos esforços para grande maioria das pessoas, uns conseguem fazer renúncias e outros apoiam-se em convenientes justificativas que os avalizam.

Na primeira metade do século XX a gripe espanhola entregou extenso padecimento à população mundial, contribuindo com as reflexões sobre o indivíduo e seu caldo cultural. Neste período, os olhares dirigiam-se aos sofrimentos que ferviam na relação das exigências externas. A gripe também atravessou o cozimento de uma massa angustiada e pesada na balança dos prazeres refreados pelas bordas da realidade.

O dress code de 2020 já desfila velhas novidades em modelos atualizados. Realidade e prazer entraram para o universo do discurso do desempenho. Nesse sentido, a disputa entre posturas de isolamento ou imunidade de rebanho admitem dimensão de maior distância entre as pontas. A capacidade de troca civilizatória torna-se ainda mais comprometida pela irredutibilidade do encontro com a alteridade, que a despeito de opções pessoais, expõe a todos.

A teia lanígera racionaliza a vida por dados aleatórios que exibem a lógica de uns morrerem para outros serem salvos, mas não indaga quem deseja o crucifixo, apenas lhes põe os pregos.

Na economia brasileira, a safra recorde no agronegócio, mesmo em tempos de pandemia, mostra a função moderadora das commodities que se mantêm com preços reduzidos para salvar a economia como um todo.

Nas crises relacionais pode ser convocado um fiel da balança que não suscite na massa uma corda para cada pescoço, contudo um laço sublimatório que possibilite a sustentação do mal-estar como saída de sua própria produção cultural.

Renata Quiroga é psicanalista, coordenadora de Serviço Social, Psicologia, Psicanálise e Psicopedagogia – PSFP.