Ainda sobre a exposição 'Queermuseu' - um buzz' case exemplar. Por Manoel Marcondes Machado Neto, editor deste OCI.

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Talvez a curadoria da exposição ‘Queermuseu’, produzida (e, antes do prazo previsto, desproduzida) pelo Santander Cultural de Porto Alegre não tenha, antes, imaginado o ‘buzz’ que o evento conseguiria. Mais por sua desprodução que pela mostra em si. A produção, patrocinada pelo banco via Lei Rouanet, aconteceria de 15 de agosto a 8 de outubro, mas foi ‘cancelada’ pelo próprio, em 10 de setembro, com um comunicado em que afirmou ter entendido – após protestos na porta da sede do centro cultural e nas redes sociais – que as obras expostas ‘desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas’, o que não estaria alinhado com ‘sua visão de mundo’. Um abaixo assinado contra a exposição – veiculado na internet – reuniu mais de 70 mil ‘assinaturas’. O banco chegou a declarar, depois, que devolveria ao MinC o valor de 800 mil reais renunciado de seus impostos via lei de incentivo.

Falem mal mas falem de mim

Do ponto de vista estrito da causa da diversidade LGBTQI*, tal ‘buzz’ foi um sucesso. Causas precisam de ‘buzz’. Para o bem ou para o mal, tanto faz. O importante é que se coloque o tema na roda de conversas – nos bares e nas redes. Mesmo que seja pela controvérsia. A liberdade da arte não convive bem com códigos de conduta externos. Aliás, nem os cultiva em seu âmbito.

Se não, vejamos. Com uma singela providência do administrador do espaço cultural, nada – ou quase nada – do ‘buzz’ teria acontecido:

O ‘problema’ – se é que houve um – está em não se ter atentado para o fato de que, nas últimas três décadas, estruturou-se, em museus e demais espaços culturais, um dispositivo comum: o setor denominado ‘Educativo’. Ora, tal setor tem como uma de suas funções precípuas trazer estudantes do ensino fundamental e do ensino médio às suas dependências. (E assim fizeram, rotineiramente). Esqueceu-se disto. Sem nem precisar de uma classificação etária ‘oficial’, qualquer gestor cultural de bom senso teria estabelecido um recorte para o segmento de público estudantil a ser convidado ao centro cultural naquele período (de apenas cinco semanas) da exposição (recomendando a atividade para maiores de 16 anos, por exemplo). Isto não prejudicaria as atividades de integração Cultura-Educação da rede escolar e evitaria a grande maioria das manifestações que, sim, chamuscaram a marca Santander – que não ficou bem com ninguém. Nem com o público-alvo da exposição, nem com o não-público.

Moral da estória

Gestores culturais não podem ser desatentos quanto aos públicos-alvo das instituições sob sua responsabilidade. Neste caso, faltou ver antes, antever, e, depois, no caso do ‘incêndio’, ter a firmeza de manter o calendário, aceitando a parte pertinente da crítica – ressalvando uma classificação etária. É como penso.

Ontem, na coluna de Ancelmo Gois, n’O Globo, noticiou-se que a exposição virá para o MAR – Museu de Arte do Rio. Observemos se a crise gerou algum aprendizado. O Rio de Janeiro, embora não seja uma Porto Alegre, também possui uma população de viés conservador nos costumes, inclusive o de manter contas em banco.

*Lesbian, Gay, Bisexual, Transgender, Queer or Questioning, and Intersex.

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