Uma semana sem João Maia.

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A gostosa gargalhada era marca deste colega professor, em um ambiente quase sempre careta – o da Universidade – clima que ele insistia em quebrar. E quebrava.

As inúmeras manifestações de colegas, amigos, alunos e orientandos pontuam a alegria com que João Maia levava o seu trabalho – que não deixava de ser sério e rigoroso como o meio exige.

João Maia era mestre em Comunicação (Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1990) e doutor em Sociologia (Université Paris Descartes, Paris V, 1993). Sua tese: “L’extase urbaine: socialitées plurielles dans la ville contemporaine”, sob a orientação de Michel Maffesoli.

Professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), refletia intensamente sobre os seguintes temas: comunicação, cidade, cultura, comunidade e sociabilidade. Era pós-doutor em Cidade e Cultura Popular pela UFRJ.

Seu projeto presente era “Comunicação e comida ‘morraica’: memória, afetividade e sociabilidade em favelas cariocas, desenvolvido no Laboratório (UDT) CAC – Comunicação, Arte e Cidade, fruto do trabalho de ensino e pesquisa que vinha sendo realizado desde 2002 pelo Grupo de Pesquisa CAC, da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, direcionado à comunidade da Mangueira, sempre com a participação de alunos de graduação e pós-graduação. O contato estabelecido com membros da favela e organizações não governamentais, principalmente a ONG Meninas(os) e Mulheres do Morro (MMM) da Mangueira, permitiu sua inserção no campo. No atual momento da pesquisa, estava-se expandindo a atuação para outras sete comunidades e outros espaços emblemáticos e tradicionais de intercâmbios culturais na cidade do Rio de Janeiro. Utilizando a comida de favela como fio condutor, se estava realizando pesquisa de campo, observação participante, entrevistas, análises e produção de um filme-documentário com o objetivo de compreender a cultura popular e comunitária, e a sociabilidade ‘morraica’ (que ocorre nos morros), enfim”.

De minha parte, um relato saboroso, bem especialidade do espirituoso mestre-cuca:

Aplicamos, juntos, no início dos anos 2000, uma prova para transferência e aproveitamento de estudos. A UERJ sempre foi marcada por essas provas, as quais trazem novos estudantes para ocupar vagas ociosas. A sala estava lotada. Coisa de uma centena de candidatos. João Maia tomou a dianteira e resolveu ditar a primeira questão. E começou: “Na obra de Edgar Morin…”. Horas depois, quando os primeiros inscritos começaram a devolver sempre muitas páginas escritas, João Maia sacou uma delas. E, discreto, disse-me: “Provas como esta nos darão menos trabalho de leitura…”. Diante de meu olhar de interrogação, mostrou-me a primeira folha, onde se lia a pergunta transcrita: “Na obra de Ed Garmorran…’.

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