Política e opinião: os limites da verdade. Por Beatriz Amaro.

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A relação entre política e verdade é complicada. Supõe-se que, em uma democracia, política presuma verdade; sabe-se que não é assim – e as fake news, que nestas eleições borbulham no reservatório da ignorância brasileira, são prova disso. Tamanha é a ausência da sinceridade política, de longa data, que surgiu a necessidade da criação de um novo termo, eleito a palavra do ano pelo Dicionário Oxford em 2016: pós-verdade.

Define-se a pós-verdade como um substantivo ‘que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais’. Trata-se de sobrepor a conveniência à verdade, daí o prefixo ‘pós’, que não remete à ideia de tempo, mas de superação do conceito. As fake news são produto desta nova maneira de subverter a realidade.

A filósofa política alemã Hannah Arendt escreveu um artigo para o The New Yorker, em 1967, intitulado ‘Verdade e Política’, no qual reflete acerca da ‘questão de saber se é sempre legítimo dizer a verdade’. No texto, a autora aponta que a impotência da verdade emerge diante da baixa periculosidade da mentira quando comparada à violência. No arsenal da ação política, mentiras são inofensivas.

Arendt faz uma importante diferenciação entre verdades racionais (verdades científicas) e verdades de fato (acontecimentos). Segundo ela, ‘quando combate a verdade racional, a dominação ultrapassa, por assim dizer, os seus limites. Mas trava batalha no seu próprio terreno quando falsifica e apaga os fatos. (…) Os fatos e os acontecimentos são coisas infinitamente mais frágeis que os axiomas, as descobertas e as teorias (…)’. O oposto de uma verdade racional, diz a filósofa, é erro ou ignorância na ciência ou ilusão ou opinião na filosofia. O oposto de uma verdade de fato, no entanto, é a falsidade deliberada, ou seja, a mentira. E é a mentira organizada é o que domina a coisa pública.

‘A verdade de fato, quando lhe sucede opor-se ao lucro e ao prazer de um dado grupo, é hoje acolhida com uma hostilidade maior do que alguma vez o foi’. Esta frase, escrita há 51 anos, além de jogar luz sobre a cronicidade da manipulação, encaixa-se perfeitamente no momento que vivemos hoje, marcado pela concentração de poder e renda e pela alta capacidade de coerção daqueles que os detêm. Um grupo é plenamente capaz de fazer com que fatos de conhecimento público sejam tratados como segredos ainda que não o sejam, tendência observada em países dirigidos de maneira tirânica por determinado poder ideológico.

Outra constatação da autora faz-se importante aqui: nos países livres, as verdades de fato que incomodam perdem o caráter histórico e são transformadas em opiniões. Uma vez que estas verdades ‘dizem respeito a problemas cuja importância política é imediata’, o problema é também político. Conclui Arendt que ‘é talvez da natureza do domínio político negar ou perverter toda a espécie de verdade (…)’.

À mídia o que importa é a verdade de fato. Cabe aos jornalistas reportar os acontecimentos cotidianos apurados e verificados. Quanto à objetividade, isto é balela – todo e qualquer texto tem impresso o ponto de vista do autor, recorte da realidade fruto de referências e perspectivas pessoais, além da linha editorial do veículo no qual será publicado.

Numa democracia plena, diante da diversidade e competitividade entre os meios de comunicação plurais, o leitor pode comparar diferentes versões e escolher através de quais canais quer se informar. Na sociedade em que vivemos atualmente, no entanto, esta diversidade fica cada vez mais escassa e os jornais cada vez mais concentrados na mão de grandes – e pouquíssimos – conglomerados midiáticos, aos quais não interessa dividir espaço e capacidade de influência e manipulação.

Vale o reforço: a verdade que se opõe ao lucro e ao poder (político, principalmente) é acolhida com hostilidade. Atualmente, com a tecnologia a caminhar a passos largos – e com a explosão das agências de checagem –, mentir deixou de ser tarefa fácil, mas a omissão continua a gritar alto. Ainda que não se possa desconsiderar o compromisso que o jornalismo tem com a realidade dos fatos, muitas vezes este pacto é encoberto pela ganância do establishment, a quem a grande imprensa se curva e responde. Na balança, a força do sistema é muito superior ao minguado comprometimento com a verdade e com os leitores.

É indiscutível que a imprensa é fundamental à sociedade – informar, passar orientações relativas ao cotidiano e contribuir para a formação da opinião pública são alguns dos papéis dos veículos de comunicação. Preocupa, porém, que veiculem factoides – informações não verificadas, distorcidas a favor de determinadas pessoas, empresas e/ou organizações – ou pós-verdades. A partir do momento em que a opinião pública é formada com base em qualquer coisa que não fatos comprovados através de documentos, registros, fontes, testemunhas oculares etc., tem-se casos claros de manipulação midiática e transgressão da verdade.

Reflexões de Arendt sugerem que ‘se a imprensa se tornasse alguma vez realmente o quarto poder deveria ser protegida contra todo o governo e agressão social ainda mais cuidadosamente do que o é o poder judicial. Porque essa função política muito importante que consiste em divulgar a informação é exercida do exterior do domínio político propriamente dito; nenhuma ação ou nenhuma decisão política está, ou deveria estar, implicada’. Enquanto a mídia estiver mais preocupada em cumprir o protocolo estabelecido com quem lhe gera lucro em vez de colocar o leitor em primeiro lugar, há de se desconfiar de tudo quanto é divulgado. As consequências são facilmente perceptíveis: perda de credibilidade, fake news, democracia frágil, uma sociedade cética, conformada, alienada e carente de informações, formada por marionetes incapazes de exercer a cidadania.

É preciso desenvolver um olhar crítico e uma capacidade de interpretação para além do que se consome. A pós-verdade exige uma avaliação dos discursos dos quais a imprensa lança mão. A mídia pode – e deve – ser plural, mas a verdade de fato não é passível de diferentes análises e tampouco deve ser tratada como instrumento vulnerável a interesses específicos.

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