Mátria lusa. Por Ana Paula Arendt.

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Portugal, casa materna dos brasileiros. Aonde voltam para provar suas bondades. Terra de azeites, vinhos, de poesia. De homens puros e mulheres de própria vontade. Os frutos da terra crus são aqui abençoados e cozidos; do mar o horizonte desfia os peixes e nos cala. Os navios se forjam nas joias das vitrines. E Santo Antônio faz gaivota abrir suas alas.

Se o olhar do português foi triste, hoje é mel, ardor fagueiro. Pois atrai com ele o mundo inteiro! Com suas ruas espalha o riso, brota o eterno em sua fala. E saudoso cantarola fados, separa o destino da fé e da fortuna. É muito à língua dedicado, sua pátria celebra ter apenas uma. Fica assim, Portugal, sem medo, pois tens muitos e ainda um imenso Filho; que retorna muito certo aos teus trilhos, a lembrar do que lhe encanta e do que lhe basta.

A brisa sossega nos olhos um estribilho. Descobre que pertence a esta mesma casta. Tomou tempo forjar arabescos com ferro, e decorar as molduras de cada janela. Ouvir de longe na torre o almoedeiro, e o azulejo decorar cada capela. E cada pedra com rejuntes ilustrados, subidas, paisagens com muitos lados, as casas coloridas ao gosto dos tons do céu. Ver moças casando e provar amêndoas a granel. Mas é preciso resistir a não experimentar tudo hoje, amainar a euforia que em tudo cabe; e ver nos campos cardos e arbustos de flores, antes de concluir que daqui tudo se sabe.

E por que não brotou da vagem a branca fava, por que razão não caiu da rama a fruta? Foi porque me distraí e bruta, esqueci de enrolar as gavinhas na trava? Sim, é preciso ter muita escuta, e colher com a mão o que estava. É preciso descrever as minúcias, para os segredos caberem na aljava. E com flechas da tua história, erguida não com sangue, nem com batalhas, mas com ousadia que ao português calha, despertar os ventos à nossa memória.

Navegando em muitos tempos nos valha o feito que o canto transformou em glória. E o orgulho é que orna o peito do luso, o mistério bem dito, as místicas nos degraus da alma. Sossego que os anos construíram com calma, afeito ao simples jeito das mesmas coisas. E as rendas nas janelas, bem alvas, são órbita do sol que rutila e ilumina as casas. Silêncios que embocam tempestades moiras, e bocas que os hinos transmutaram em asas. E nas paredes recordam tragédias, dão nós com os sóis dos gestos de coragem.

Em doces palavras nos gravam grandes imagens, de incêndios e de instantes sem rédeas. Apenas para a sombra de virtudes pétreas nos abrir do milagre a possibilidade. E no escuro constroem então essas cidades, às quais convidam partilhar da métrica. Um castelo não será mais que uma idade, e suas pedras cada insistente abordagem intrépida.

Ser bem lusa é portanto plantar as favas, revisitando seu caminho sem perturbá-las e colher com as próprias mãos os cachos de frutos, recordar de gloriosos minutos, construir-se das rochas dispersas no mundo. Recolher no verso algo profundo… Que um dia outro poeta irá declamar. Recolher imperturbável as ondas do mar… Que no olhar vigiam e sondam, tão constantes quanto as moças que sonham, tão suaves quanto a cor do Lumiar.

Ser bem lusa é ter palavras que encontram os olhos. Mas não deixes, Portugal, que o humor lhe esconda. Nem que os peixes cavalguem as tuas medidas. É a ti que nós buscamos e as tantas saídas que nos levam ao calor de uma casa. Que esta terra sempre nos exija erigir novas cidades, novas eras… Sem jamais flertar com o vulto das guerras, sem esquecer que a Verdade nos afaga. Sem correr de quem nos rogou praga, sem ceder ao mal com o espírito. Seja o amor a nossa língua e o elixir físico, espiga de grãos que aterram escarpas. Ouro com que se protege a palavra na arca. Pois é provável que nos encerremos na visão do obstáculo, é possível que tenhamos olvidado do rito no cenáculo. Mas permanece aqui, aberto aos séculos! Cobre com terra macia os tubérculos, deixa os livros bem fáceis nas estantes. Para que eu me lembre como tudo era antes, anterior ao império do sucessivo. Como era tudo concreto, desperto e vivo, mesmo o simples hábito de servir um café. Comendo os teus pasteizinhos de pé, sob o abrigo da antiga Lisboa, quando era permitido ficar à toa, desde que se respeitasse a tradição do passeio.

Das conversas diretas sem muitos rodeios, o transporte das ervas aromáticas que os ingleses imitaram com chá. Recordemos que os franceses também se deslumbraram cá, que se apropriaram de muitas das nossas soberbas. E ficando com elas, restou-nos apenas esta beleza, das peças oníricas, das frases celestes. Os ritos de paz e a foz dos sendeiros campestres, no Cascais e no canto dos velhos monges. Dos santos ainda frescos de ganhar renome, das flores que brotam nas tuas calçadas, dos sabores que anseiam conhecer meus filhos. Das cores dos hidráulicos ladrilhos, dos quais um brasileiro jamais se cansa. Fica assim, emocionado, feito criança, totalmente dominado pela dor da saudade. Recorda da época em que eras jovem de idade, e abre os pergaminhos das velhas rimas. Assim é que no céu beija uma menina, que ajusta uma saia sem ter anágua. Na mãe ela discorre sobre um futuro de corridas águas, os muros adornados, causados em atração. É assim que estende o português a mão, e que esse hábito alegre não se perca. Para que te venham todos que adoeçam, e aqui encontrem a resposta de tua generosidade. Pois são mais célebres os quadros na tua cidade, têm aço mais forte o braço de tuas estátuas. Tem gosto eterno tua chama de curvas fátuas, e os romanos ainda precisam rezar.

Mas Portugal despertou cedo, já, e pode dedicar-se às mulheres e às coisas. De peito aberto, à Pátria e à ordem das loiras ações que os homens precisam imaginar. Aos olhos sagrados que soem dirigir-se a algum lugar. Até que as tuas pernas fiquem doídas. Até que as batidas do coração fiquem doidas. Lidera o tempo, Portugal, ergue tuas noivas! As coroas que impuseste, as canções que inventaste! Avenças e preces que a um rei jamais bastassem! E na ponta do Tejo, pendura o orgulho de tuas medalhas. Convite aos povos e aos alanos amantes das falhas, a serem cuidadas, corrigidas, curadas… Que em Alenquer combate, com nomes, tiranos invasores de moradas. Ah! Portugal. Tens poucas muralhas e muitos escudos. Brasões no cais, nas ilhas, nos castelos mudos. Avisa-nos que não é preciso correr. Conta que antes é preciso conversar por quê. E extrai de muitas seivas o néctar dos frutos maduros. Teus filhos querem o que é bom e puro. Ensinaste assim! O que é bom pra ti, é bom também para mim. Sigamos mais lusos, e o mundo jamais terá fim.

E como dominaste o mar? Fizeste a paz consigo? É dentro que mora o adversário, o amor e o meu amigo? Isso também me disseram os jacarandás. É primavera, discorrem eloquentes as árvores com o anil do ar. Elas não permanecem porque resistiram às dores. Elas aqui crescem porque escolheram viver de teus amores. No Porto celebram, em Sintra brindam. Em Coimbra elas estudam como os males sempre findam. O abeto cresce na quinta, o trevo brota na sexta. No vale teus lírios falam, o linho nos veste a mesa. Toma a tua cornucópia, mátria lusa, é um gosto te ver produzir. A massa e o mosto são luvas das mãos que tecem guipir. Reúnam as senhoras, escolham o broche da minha lapela. Quero o beijo apaixonado dos teus casais senis.

Mátria lusa, banha-me em cravo, canela e anis. Recobre à noite o corpo com um manto de calda doce. Se algo não foi, é porque não convinha que fosse. Vestida em vasos, os loucos creem dominar a água. Mas o luso é que é sábio, atira-se ao mar, atreve-se à frágua. Não porque seja um incauto, desprovido ou suicida. Mas pela nau vultosa, de velas brancas bem construídas! Cisnes lusos flutuam em nada menos que um oceano. Sem demora alcançam continentes e sabedoria de ser humano. Seu trajeto é re-dito, o mesmo Tejo corre no seu leito. As margens comemoram que as feras desistiram de seu curso perfeito. E a tempestade é bem-vinda à coesão do corpo, o raio convida a construir a casa.

Se os portugueses navegam no oceano, é porque um albatroz abrirá suas asas! E algo imenso será lembrado, nesta terra visitarão as lágrimas que na missa escorreram, a velocidade do andorinhão. A luz instantânea que abriu meus olhos e despertou a essência. O sol da manhã delicado que nos pediu paciência. Vestiu as nuvens de formas, deu às horas um significado. Portugal temperou e águas mornas deixaram meus dedos curados. E chama ao novo. E junta o povo. A carestia é de Deus o condão. Para tirar muitos fios de um único ovo, e ser feliz de antemão. Coragem e jeito as pernas da vontade lusitana. Dói meu coração no peito, minha Pátria brasileira chama. Eu vou. Mas eu vou direito. Portugal me ensinou que me ama. Origem e destino, nave e abrigo. Porto de um barco inteiro. Soldo da minha alfama. Livro que escreve consigo.

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