A fé e a razão brasileira neste princípio de século XXI. Por Ana Paula Arendt.

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É com muita tristeza que tenho observado eventos nos quais as pessoas vêm veementemente condenando toda e qualquer manifestação de fé. A adoração vem sendo vista como um fenômeno jocoso na esfera política, um indesejável vírus subjetivo no espaço público que se compartilha, evento utilitário em que mergulham e se debulham políticos. Eu me recordo que há uns cinco anos, no Brasil, um grupo que se preparava para uma vigília durante a primeira visita do Papa viu-se obrigado a testemunhar no Rio de Janeiro um protesto público de pessoas desnudas, com o órgão sexual coberto por imagens religiosas, e a destruição de objetos sacros. Os fieis entrevistados disseram à época não se incomodar, embora preferissem que o evento da Marcha das Vadias, como chamam no Brasil esse movimento de protesto, tivesse sido avisado para que pudessem se reunir em outro local.

Hoje há o consenso de que o Estado deve ser laico e, desde Napoleão, o código civil se presta a isso. Achou-se que, com a separação clara entre o poder material e o espiritual, teria se escapado de todo e qualquer dogma que suprimisse a liberdade e a racionalidade humana. O aspecto secular estaria hoje separado do sagrado, o material não se confundiria com o espiritual, de maneira perfeitamente clara. Mas essa é história esquecida, porque quem se lembra, recorda-se de que Napoleão não decretou o seu código civil como lei suficiente antes de prender e fazer o Papa Pio VII cruzar os Alpes a pé, e apenas depois de não conseguir dobrá-lo mesmo com todo o seu esforço.

O Papa Pio VII, beneditino, simpático ao Iluminismo e aos trabalhos de Diderot, surpreendeu as pessoas de seu tempo ao declarar, em 1797, que a democracia não seria um regime de todo incompatível com a fé católica. Foi com base nisso que ele alcançou um entendimento na concordata celebrada sob a forma republicana de governo instaurada por Napoleão, a qual mantinha o poder do Papa de designar sacerdotes da Igreja.

Contudo sempre resta uma explicação ulterior que falta. A concordata foi sendo emendada – 75 vezes –, e, ao visitá-lo por ocasião de sua consagração como Imperador, sua Eminência foi presa e teve de caminhar e cruzar montanhas em meio à neve, acompanhado de guardas napoleônicos, até que concordasse em aceitar a cerimônia civil em que Napoleão e Josefina haviam se casado, o que ele se recusava a fazer. Exigia o Papa Pio VII que se casassem na Igreja, antes de consagrá-lo Imperador e coroar Josefina. Recordo-me de dois quadros célebres, o de 1801, de Jacques-Louis David, não sei se inspirado nesse pseudo-triunfo de submeter o Papa, em que se podem ver seus soldados e uma carruagem ao fundo, nos Alpes, e o de sua auto-consagração e coroação de Josefina, em 1805. O Papa Pio VII, beneditino acostumado à reclusão da vida religiosa, no registro histórico, permaneceu preso sem protestar: aparava seus próprios cabelos, alimentava-se do que havia, e retornou ao Vaticano apenas após a deposição do Imperador, sob aplausos dos fieis.

Disso a dizer que fé e razão encontraram um equilíbrio ou síntese durante as tensões entre as liberdades republicanas e as práticas religiosas parece de fato forçoso. A fé sobreviveu mesmo após a insistência da razão; quando muito se acomodaram e se acostumaram uma à outra. O fato é que convivem a despeito de suas diferenças e poucas vezes dialogam.

Já a fé e a ciência, muito mais bem resolvidas, produziram os trabalhos de notória relevância de Roger Bacon, Copérnico, Grimaldi, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, Mendel e Lemaître, além da champagne, do chocolate e dos maravilhosos doces de natas e gemas que sobravam das claras com que as freiras engomavam suas roupas, nos conventos. Sem falar, é claro, en passant, nos versos de Sóror Juana Inés de la Cruz, que inspiraram Octavio Paz, Nobel de 1990. Um excelente livrinho de Schopenhauer recordava como eram as bancas de aprovação de teses e os debates acadêmicos na era medieval, para grande surpresa do leitor, com avisos prévios de quais pontos seriam questionados e com qual fórmula, isentas de qualquer teor normativo as hipóteses e as conclusões de tese. Poder-se-ia questionar se isso não foi suficiente para prevenir um período conturbado e violento da nossa história ocidental, mas enquanto a fé se desenvolvia paralelamente, suscitavam os cientistas as mais significativas descobertas da matemática e da física, as leis de Newton, o cálculo, o magnetismo, o sistema heliocêntrico e a gravitação dos corpos celestes.

Mas voltando às tensões entre a fé e a razão de estado, por que Napoleão se recusava a que fosse celebrado um matrimônio religioso com Josefina, se desejava a bênção do Papa? Talvez porque reconheceria com isso ser sua autoridade insuficiente para celebrar um casamento, o que poderia minar o poder de liderança que ele exercia sobre o Exército. Tivesse noções de teologia, recordar-se-ia que na liturgia são os noivos que celebram um vínculo matrimonial, e não o sacerdote, embora a Igreja exija que o rito seja cumprido com os fieis de testemunha e debaixo do registro e cuidados pastorais da Igreja, quando se transmitem os conhecimentos e tradições dessa civilização cristã. Além disso, caso ele aquiescesse, seria necessária sua conversão e observância da fé católica, que preza pela obediência e palavra final do Papa em questões que pertencem ao reino espiritual, de ordem sacramental, que se voltam para a salvação da alma, mas que àquela época abrangiam muita coisa. Talvez fosse um purista que desejasse total isenção em assuntos de Estado? A história o registrou como um ditador. Queria ser consagrado pelo Papa, mas dar ele próprio palavra final sobre assuntos do mundo espiritual e confessional por meio da nomeação e exoneração de sacerdotes das suas funções específicas. Parece ser a mesma história que hoje vemos quando um herdeiro da coroa inglesa é retirado da linha de sucessão, por ter se convertido ao catolicismo: pois não se pode ser católico e ao mesmo tempo liderar uma igreja protestante. O que é paradoxal, porque a Igreja anglicana foi fundada para salvaguardar a autoridade do monarca sobre matéria religiosa… Só que Napoleão não tinha uma igreja própria que justificasse a necessidade de que sua palavra fosse final também no domínio da fé. O resultado encontrado por Napoleão, tendo em vista a inflexibilidade de Papa Pio VII, foi ser consagrado por ele próprio, de modo que a esse excesso outros foram se seguindo, até à sua deposição. E nem poderia ser diferente, pois a despeito da resistência política que encontrou em dominar outros grupos, sua decisão vinha a interferir também na liberdade religiosa do estado laico que ele justificava sustentar; ao menos aquela liberdade que todos os católicos muito prezam, a de obedecer ao Papa em matéria religiosa.

De todo modo, as Repúblicas que se seguiram emularam e evoluíram essa separação entre Igreja e Estado, embora por vezes coincida a religião do chefe de Estado com a fé católica. Nesses casos tem sido aplicado desde então o princípio da liberdade de religião republicano, pois um mandatário pode gozar a liberdade de culto prevista em boa parte das constituições nacionais e, ao mesmo tempo, dispor sobre o mundo material sem se ver obrigado a oficialmente consultar o Papa.

A minha experiência pessoal como cidadã é um pouco curiosa e não menos irônica: porque tendo pretendido o divórcio na esfera civil, em uma Vara de Família, e em seguida a nulidade do casamento religioso, em um Tribunal católico, a autoridade religiosa respondeu com muito maior rapidez e eficácia a esse pleito. Até hoje, aliás, o exercício do meu direito ao divórcio, previsto no código civil, ainda produz efeitos legais nocivos, decorrentes de contestações relativas à guarda filial e do acordo consensual na esfera civil, publicado por autoridade judicial, mas violado pela outra parte. A Igreja, portanto, ofereceu no seu domínio da fé uma resposta mais positiva e pronta diante do conflito, em uma matéria tão fundamental para que se possa gozar do direito e felicidade da convivência familiar com tranquilidade, contra todas as expectativas, declarando nulo o fato do qual decorriam obrigações que estavam em disputa, e, com isso, acabando com o conflito em seu domínio.

Esta longa introdução e ‘causo’ pessoal é também para recordar uma polêmica que tem poluído o dia a dia nas redes sociais de quase todo brasileiro, e que pelo visto, chegou também a Portugal, onde personalidades políticas lusas vêm rechaçando ou aderindo ao discurso de um candidato, no momento em que escrevo, favorito a Presidente de nossa República brasileira. Afinal, o Brasil foi parar em muitas capas de jornais importantes do mundo inteiro, depois de tanto tempo. O atual pretendente favorito a mandatário do Brasil, neste momento em que escrevo, pelo menos, defende o armamento da população, pois associa a falta de armas à violência; o Papa Francisco, pelo contrário, vem manifestando o desejo de desarmamento da população, pois associa a violência à maior disponibilidade de armas para praticá-la.

De modo análogo à história pessoal de Napoleão, e de modo similar ao que ocorre na linha sucessória do trono britânico, o pretendente a mandatário brasileiro em questão parece acumular práticas religiosas que eventualmente poderão emaranhar-se: sem abrir mão da fé católica e da devoção a Maria sua mãe, tendo se divorciado e se casado novamente, foi também batizado em igreja carismática e, adicionalmente, vem manifestando simpatia incondicional pela causa judaica. De modo que, pela consciência de declarar-se católico, obriga-se o candidato a respeitar o primado da opinião do Papa em questões de seu mandato que venham a interferir sobre o bem-estar espiritual dos fieis da Igreja Católica, hoje cerca de metade da população brasileira, mas causa dúvida como procederá politicamente para atender aos segmentos religiosos que rejeitam a primazia papal. Escrevo antes de saber o resultado das urnas.

Outra polêmica que se instalou nessa matéria de razão de estado e fé, em seguida, foi a do candidato que se opôs ao favorito, o qual representa a esquerda. Ofereceu ele ao eleitorado propostas mais simpáticas à preocupação deste atual Papado, como a redução da pobreza, distribuição de renda e melhoria das condições de vida dos mais pobres. Foi atiçada essa discussão, ainda, pelo fato desse segundo colocado nas pesquisas, no momento em que escrevo, ter comungado em uma paróquia da Igreja Católica na periferia de São Paulo, chocando todos aqueles que o supunham ateu, por defender um ideário socialista. Libanês, cujo avô foi um padre católico ortodoxo, chegou a sofrer assédio de uma fiel católica naquele momento, acusado de comungar sendo abortista e de desrespeitar a fé católica. Contudo o padre, correto juiz da causa em apreciação, ofereceu a ele a sagrada eucaristia de bom grado, com o que para todos os efeitos o incluiu na fé católica, salvo venha a negá-la.

De fato, não parecia haver impedimento, fôssemos discutir religião como discutimos futebol, pois ser favorável à descriminalização do aborto não é o mesmo que ser favorável ao aborto. Pelo contrário, aprendemos no catecismo que não se deve julgar, condenar e excluir pecadores, mas perdoar, acolher e instruir, haja vista que somos todos pecadores, segundo essa fé. De modo que defender que não sejam presas aquelas mulheres que pratiquem o aborto, muitas vezes por abandono do pai e em um momento de vulnerabilidade ou loucura, e tenham atendimento médico apropriado, não implica necessariamente ser favorável a que venham a cometer esse crime. Já a liberdade de decidir ter ou não um filho após a concepção, de fato, quanto a isso a fé católica recusa veementemente, tendo em vista considerar que esse poder soberano de decisão pertence à mulher antes do ato de concepção, e não arroga ter sobre a vida, a qualquer momento, o arbítrio de interrompê-la, pois gerar a vida é para os religiosos um desígnio divino do qual a mulher não é titular exclusiva. Tenha sido esse ou não o raciocínio do candidato a comungar, fato é que a consciência de cada um é que determina se a comunhão produzirá efeitos de salvação ou de condenação no mundo espiritual, para aqueles que têm essa fé. Fato é também que a palavra final, quando há dúvidas sobre comunhão ou excomunhão, é em última instância do Papa.

É curioso observar como mesmo a fé necessita ser dotada de razão e de uma certa organização racional para que possa ser exercida, sobretudo coletivamente. De modo semelhante as liberdades do regime democrático parecem não produzir o bem-estar coletivo suficiente quando são orientadas apenas pela razão. Ambas parecem qualidades essenciais para a construção da dignidade humana. Fato é que as imagens sacras destruídas pela Marcha das Vadias, com que os fieis católicos pareceram não se incomodar, não tinham valor sagrado, pois é vedada a idolatria na fé cristã; mas retratavam a figura humana, foram confeccionadas por mãos humanas para inspirar a fé das pessoas e para servir à construção de exemplos de dignidade em espaços religiosos. Equivale à liberdade de expressão a liberdade de destruir esse intento? Afinal, apesar de contarmos com a liberdade de manifestar todo e qualquer tipo de pensamento, não foi criado ainda um ‘direito à destruição’.

De modo ainda pior as multidões e grupos vêm queimando e destruindo bonecos infláveis, esses criados apenas para essa finalidade, de representar a depredação da imagem e do destino de pessoas vivas: do ex-presidente, dos ministros do Supremo Tribunal Federal, durante julgamentos… A figura da pessoa enquanto sujeito deixa de existir nessas manifestações e cede espaço ao cargo, à autoridade que representa, ao alvo de ódio coletivo. E agora passaram a produzir outro boneco do juiz que mandou prender o ex-presidente; coisa que antigamente apenas se fazia durante a malhação de Judas, uma tradição no Brasil e em Portugal, no Sábado de Aleluia. No interior de Rondônia, onde cresci, por vezes passávamos por uma esquina em que havia um ou dois bonecos de Judas parcialmente carbonizados, pela gente pouco inclinada a extravasar a violência mesmo em um boneco de palha. Mas hoje vemos isso nos jornais fora de época e de contexto. Aliás, um candidato ao mais alto cargo da nação tem sido ‘coisificado’ durante a sua campanha por muitos defensores de direitos humanos; ele é literalmente apelidado ‘coiso’ por pessoas que se declaram combatentes contrários ao fascismo e ao nazismo. O que é muito contraditório, pois essas seitas políticas legalmente objetificavam as pessoas praticantes e simpatizantes da fé judaica. Já muitos defensores da segurança e das liberdades individuais, que argumentam contra o nivelamento social do comunismo e o estatismo, por outro lado, têm também contraditoriamente abominado o pensamento esquerdista como uma violência a ser combatida e criminalizada, ao invés de simplesmente refutá-lo, opor-se a ele ou ignorá-lo.

Assim, independentemente de qual tenha sido o resultado das eleições, momento tão passageiro no cenário em que vêm e vão os protagonistas políticos, reflito com os leitores se o mal-estar que vivemos no tempo de hoje, para o grande prejuízo coletivo da instabilidade política, das polarizações ideológicas, não decorreria de um desprezo ao esforço de construção da dignidade humana, de respeito à imagem do ser humano, a qual necessariamente é constituída não apenas pela razão, mas também pelas crenças sobre as quais são construídos os edifícios de conhecimento. Apesar de termos mais espaços de liberdade de expressão parece que a fé perdeu espaço onde se manifestar, porque passou a ser desmascarada como um fenômeno primitivo, apesar de persistir como uma necessidade humana fundamental. Por que, tendo supostamente se chegado a um patamar no qual se acreditava superado o primado da violência coletiva, tendo como pano de fundo a proliferação de tantas igrejas carismáticas e salvacionistas, cristãs, em última análise, discursos e acordos e convenções de direitos humanos, encontramos contraditoriamente tanto respaldo para discursos de violência?

Toda a construção moral das décadas recentes que paralelamente tentava suprimir esses impulsos por meio da popularização do exercício da fé, como o abandono do latim nas missas, não foi suficiente para conter que a sociedade focasse nos aspectos materiais da qualidade de vida, e assimilar com o maior acesso a educação e escolaridade o discurso científico e racional. A fé deixou de se manifestar nos ritos religiosos para ser um elemento secundário, e quando desapareceu o seu espaço por completo no quotidiano da vida das famílias, passou a se expressar de modo caótico e dogmático nas várias esferas objetivas, de partidos, universidades, imprensa, espaços nos quais as pessoas deveriam se organizar não pelas paixões ou emoções subjetivas que dela decorrem, mas pela razão, da qual decorrem ideias e argumentos que possam ser compreendidos, contestados, recusados ou eventualmente aceitos. Mas ao mesmo tempo, convido a refletir que a sinceridade da fé, na forma de dogmas que protejam a vida e a dignidade humana como um valor inquestionável, parece ser hoje mais necessária do que nunca, para que um estado laico e as liberdades republicanas não se canalizem para esforços destrutivos, para evitar que a política não se torne um espetáculo irracional e emotivo das massas.

Deixo entrever a vocês na leitura deste mês um pouco do meu espaço barroco e privativo de minha biblioteca, no qual busco exercer minha fé primitiva com liberdade, em alguns poemas do livro que estou engendrando. Chama-se ‘Salmos para meus Filhos’. Partilho também uma alegria: Padre Aleixo, meu santo confessor e paciente ombudsman, o jesuíta e estudioso de temas políticos que mais respeito e admiro em nosso País, disse ter gostado, de modo que estou trabalhando em mais deles. Eis aí então um lugar em que passo algum tempo, embora tenha aprendido que as respostas para lidar com eventos difíceis da vida já foi há muito melhor compilada pelo músico e rei Davi em textos mais sagrados.

Salmo 10 – Ana Paula Arendt

Senhor, ajuda a exercitar-me penitente
a enxergar meus erros e a lamentá-los
dá-me a graça de uma dúvida frequente
sobre a hora negra em que cantarão os galos.

O imprudente dedicou-se às paixões,
viveu da décima diversão descartada,
atendeu aos desígnios do aço da espada
e falou mal dos mortos já nos caixões.

Mas me ensinaste a ser grata pela boa ajuda
e empenhar-me no trabalho para honrar favores;
me mandaste insistir e extrair elixir das dores

e a contar as dezenas que a noite mansa enxuga.
Ele trocou a minha coragem por uma licença muda
Para os sonhos variegados em moinhos criadores.

Senhor, planta a humildade neste meu solo revolvido,
Cultiva essa árvore dourada cujo fruto é ser ouvido.

Salmo 11 – Ana Paula Arendt

Senhor, livra-me do pensamento fixo, cego e inflexível,
venham teus dogmas de vida e não os duros dos ignaros
perdoa-me barganhar a cortesia para me passar por crível,
dá-me a taça de bom humor e alegria com que me reparo.

Na tua companhia me oculto por trás de cortinas de plantas
dos falsos amigos que me hostilizaram dizendo valer-me.
Eu celebro portanto teu voo e não o comichão dos vermes
nos andares que oprimem em nome de variedades tantas.

Acusaram-me de consentir uma generalizada iniquidade
por recusar as palavras gloriosas de seus autodiscursos
mas despachei-os a si mesmos e guardei a tua amizade
Senhor, prefiro eu mesma escolher os teus cursos

a revidar o privilégio de ter sido desrespeitada…
A acusação de agredir do agressor não me vale nada!

A liderança de quem me acossou não merece o meu minuto.
A eloquência da tua verdade é um fato mais claro e enxuto.

Salmo 13 – Ana Paula Arendt

Eu choraminguei muitos e muitos tormentos,
mas afinal para isso é que serve um salmo:
para dar ao Senhor a dimensão do meu sofrimento
e Ele exorne meu dia de azul, bem fresco e calmo.

Salmodiarei ao D’us eterno e todo-poderoso,
Ser unânime que contém tudo e todos os aspectos
pois há muita coisa vivida entre os mais circunspectos
que nos une inextricáveis num gozo misterioso…

Ao ateu não parecerá grande feito,
ao fanático soará pretensioso
ao moderno será meu direito,

ao piegas algo pouco ardoroso.
A esta tua serva é um encargo perfeito,
a esta tua escrava é um gesto atencioso.

Senhor, me acalma e regozija falar contigo por tantas cavernas
pedir palavras para os meus dedos e passos para as minhas pernas.

Salmo 15 – Ana Paula Arendt

Senhor, ajuda-me a não deixar as coisas pela metade
a não me apejar ao primeiro sinal de chuva pequenino
ajuda-me a prosseguir sob o sol da simplicidade
a confiar em tuas mãos sagradas o meu destino.

Mostra-me aquela carta antiga e empoeirada,
traz no tubo de raios a mensagem há muito esquecida
quanta coisa para ter ideias novas entoadas
e rascunhos para seguir reinventando marroaz a vida.

O Senhor trouxe alegrias abundantes aos meus dias
um problema resolvido em uma tarefa de casa difícil
que minha Filha festejou fazendo fogos de artifício,

ter mãe que o resolve com paciência e companhia.
Dá-me a graça de prescindir de prêmios e honras,
o edifício construído apenas dos fatos dos filhos
as dízimas que tua face gentil me arredondas,

a perfeição de que nenhum tenha saído dos trilhos.
Dá-me a canção para agradecer e festejar meu fim dos anos…
Ah, Senhor, foram eternos os momentos que compartilhamos.

Salmo 18 (para Madre Teresa) – Ana Paula Arendt

Senhor, onde está teu rosto, teu corpo, teu pensamento?
mostra-me as mãos que escrevem as tuas palavras,
Alteia as imagens que revelam tua face por dentro.
Mas que não me tomem minhas perguntas como vã lavra,
de que Te busco e jamais Te encontro a saciar momentos.

Senhor, se eu pergunto, sempre me respondes;
mas apenas minhas perguntas são registradas no canto,
pois tuas respostas não encontraram versos onde
possam se segurar explicações tão eloquentes quanto.

Assim, Senhor, não consegui definir a tua destreza
e embora os sacerdotes pudessem ouvir minha reza
preferiram concluir que me estiveste em longo silêncio
a notar que respondeste em corolários de Teu estêncil.

Porque não ousei ser da Tua mesma natureza,
deixei que o Senhor me contasse o dia de hoje;
ele é de novo nascente e ao seu final me foge

o propósito que irá me re-ensinar com certeza…
Até que Tua firma nas rugas de meu sorriso se aloje,
até que alguém o mostre, Senhor, em tua defesa.

Salmo 19 (para hermano hospedero Miguel, de la Abadia del Niño Dios) – Ana Paula Arendt

Obrigada, Senhor, por este alimento
que não falte pão em nenhuma outra mesa
ensina a quem desperdiça o repasto e momentos
a não deixar no prato nenhum grão da Tua certeza.

Mostra Senhor, a confiança do plantio e da colheita
a realização de um dia bem trabalhado em Teu caminho
o cansaço que nos derruba, mas acha em Ti sozinho
uma resposta suficiente que nos satisfaz perfeita.

Ensina o valor do pão quente e do sonho macio,
aplacando a nossa fome, o vazio do estômago
e ainda a solidão que guardada em nosso âmago
fez empenhar constante arado em um esforço sadio.

Senhor, divide para mim o pão que eu pedi e me deste
com a criança que vem todo dia me rogar algum trocado

que eu leia com ela na calçada um livro de bom grado
ao invés de reclamar que a teus filhos não o propuseste.

Ana Paula Arendt escreve na coluna ‘Terra à vista’ – mensalmente – sobre temas de interface com a cultura lusófona. Correio eletrônico: contato.anapaulaarendt@gmail.com

Uma resposta para “A fé e a razão brasileira neste princípio de século XXI. Por Ana Paula Arendt.”

  1. Fábio Luís Cândida disse:

    Fé palavra curta que significa acreditar naquilo que não se vê, mas que já está lá, que está por vir Razão é ter o conhecimento empírico de uma face da verdade, pois sempre existirá a continuidade, pois a minha razão não é intransponível. Tempo certo darão frutos, Fé e Razão são irmãs da sabedoria, irmã gêmea da humildade e enfim o homem amará o seu semelhante, como diz que ama Deus que não vê.

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