Eleições 2018: a grande mídia e o ciclo dos significados. Por Beatriz Amaro.

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Nestas eleições, cada novo fato pressupõe novas análises por parte da mídia – e cada nova análise joga à luz um passado que parecia esquecido e, de certa forma, ‘superado’ até então.

Exemplo claro é a ascensão repentina e explosiva do candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL), que trouxe à tona reflexões diversas a respeito do nazifascismo, doutrina correspondente aos governos totalitários de Adolf Hitler, na Alemanha, e Benito Mussolini, na Itália.

À esquerda, colunistas e cientistas políticos alertam para os perigos que uma possível (e provável, é seguro dizer) gestão bolsonarista representa às minorias sociais, massacradas pelo discurso intimidador do presidenciável, que inflama conservadores e radicais. À direita, as análises apontam Bolsonaro como única solução contra a dita ‘ameaça comunista’, representada pela hipótese da volta do Partido dos Trabalhadores à liderança do Poder Executivo federal. O candidato representa ‘rigidez’, ‘ordem’, ‘tradição’, valores que os reacionários julgam perdidos.

Conceitos que ontem representavam determinadas coisas hoje representam outras. Em Semiótica, este processo de ressignificação chama-se ciclo dos significados. Para simplificar uma noção demasiado acadêmica: trata-se de dar novo sentido a uma ideia cuja forma mantém-se intacta. ‘Família’, por exemplo, tem a mesma forma de 50 anos atrás, ou seja, é escrita e dita da mesma maneira; a concepção, no entanto, mudou: se há 50 anos uma família significava, quase que necessariamente, um pai, uma mãe e um casal de filhos, hoje pode-se concebê-la com núcleos diversos.

O Partido dos Trabalhadores (PT) passou por um ciclo de inúmeros significados, que continuam a dividir-se diariamente em outros tantos. Começou como oposição de esquerda à ditadura militar; em determinado momento, foi considerado, sobretudo na visão dos pobres e de parte da classe média, ‘salvador da pátria’, devido aos programas sociais e iniciativas econômicas que diminuíram drasticamente a pobreza no Brasil (a proporção de pobres caiu de 23,4% em 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência, para 7% em 2014, início do governo interrompido de Dilma Rousseff); e, graças à ganância e ao grande envolvimento em escândalos de corrupção tais quais o Mensalão e a Lava Jato, além do índice de cerca de 13% de desempregados brasileiros, hoje é considerado o partido responsável pela naufrágio do País em águas insalubres.

Tanto o nazifascismo quanto o PT são alvos de uma estratégia da grande mídia para controlar os reflexos da heterogeneidade social e convertê-los em revérberos involuntários homogêneos – uma homogeneidade que, é claro, beneficia a elite midiática. É a chamada fabricação do consenso, conceito do linguista Noam Chomsky que designa a domesticação à qual a sociedade é submetida. Aos meios de comunicação de massa cabe utilizar sua capacidade de influência para, através de uma agenda tendenciosa e muito bem pensada pelas grandes corporações, convencer a população a aceitar como verdade única e irrefutável uma ideia que corresponde aos interesses do projeto de poderes econômico, político e ideológico dos grandões.

Os pequenos veículos independentes, que por vezes apresentam análises incompatíveis com este projeto, são sufocados sem dó nem piedade. Resta à superfície as recordações mencionadas no primeiro parágrafo deste texto, examinadas apenas sob o ponto de vista dos graúdos e prestigiosos (um prestígio seletivo do ponto de vista do eleitor, inclinado a concordar apenas com o que vai ao encontro de suas posições, mas que aqui é relativo ao alcance do discurso).

As dezenas de milhões de votos em Bolsonaro, que provavelmente o elegerão presidente do Brasil, não refletem apenas a opinião de seus eleitores, mas também o que a grande mídia quer que o brasileiro pense a respeito dos conceitos envolvidos nas eleições presidenciais deste ano. O ciclo dos significados está intrinsecamente ligado às oscilações sociopolíticas de uma sociedade, que por sua vez estão intrinsecamente ligadas às ambições dos ‘donos da verdade’ (que hoje incluem, a saber, o WhatsApp, cujo significado passou por mutações interessantes e dignas de nota: de aplicativo multiplataforma de mensagens instantâneas, é hoje fonte confiável e crível de informações).

A participação midiática na fabricação do consenso suscita, enfim, questões acerca do tempo presente: dentro do ciclo de significados da grande mídia, não seria era da informação uma nomenclatura ultrapassada?

2 respostas para “Eleições 2018: a grande mídia e o ciclo dos significados. Por Beatriz Amaro.”

  1. Carolina Fuschino disse:

    Era da desinformação prezada Beatriz! Fico aliviada de ver elucidações como neste seu texto. Cria o conforto de ver imprensa crítica e independente!
    Parabéns a vc e ao observatório da Comunicação!

  2. Ana Rosa Menezes disse:

    Considerações pertinentes. Vale a reflexão.

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