Assimilar a civilização brasileira. Por Ana Paula Arendt.

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O incêndio do Museu Nacional no parque da Quinta da Boa Vista provavelmente ganhou maior proporção do que poderiam supor seus administradores, ao calcular os riscos políticos que poderiam correr ao deixar de repassar os recursos necessários para a sua manutenção. Estampadas nas capas de jornais do mundo inteiro, cidadãos civilizados se chocaram com as imagens do fogo e com as cinzas às quais foi condenado o maior museu de história natural da América Latina. O New York Times concluiu com gravidade que seríamos ‘uma nação em declínio’. É difícil criticar a postura da mídia internacional, se considerarmos que foram perdidos, no incêndio, a biblioteca de D. Pedro II, o trono do Rei do Daomé, o caixão de Sha Amun, o fóssil mais antigo de uma mulher encontrada na América, um imenso acervo de artefatos indígenas e de antropologia, totalizando inumeráveis itens de valor e de pesquisas… Teria restado apenas o Meteorito do Bendegó, coletado por volta de 1784. Para quem cresceu ciente da história brasileira e almejou um dia ser cientista, foi o mais vasto golpe no patrimônio brasileiro já registrado. E para quem não curte ciência, nem história, há de se considerar ainda o valor inestimável desses tesouros, que bem somam maiores quantias do que aquelas depositadas em edifícios melhor guardados. Para os artistas, talvez tenha sido pior ainda o golpe: os afrescos e pinturas, apesar de mal preservados, conferiam um depositário de valor imenso. Foi grande parte do registro de uma civilização brasileira transformado em nada! Ali naquele lamentável evento não se perderam apenas 200 anos de história do Brasil, desde a fundação do museu em 1818, mas sim mais de 12 mil anos, de quando data o fóssil mais antigo.

Para quem acompanha o dia-a-dia das ações e a dinâmica das decisões governamentais que conduziram a esse resultado, explicitadas nas coletas de depoimentos e de informações pelos jornalistas, ficou claro em primeiro lugar a falta de cultura dos próprios gestores do patrimônio. Um reitor, diretor ou ministro que gostassem de cultura visitariam com alguma regularidade o Museu, como o fazem as autoridades e todos os cidadãos dos países europeus e norte-americanos. E ao frequentar o espaço, não teriam chegado à conclusão da necessidade de melhorias? Contudo a maior autoridade que o Museu havia recebido oficialmente data de muitos anos atrás: teria sido, conforme tem circulado, Juscelino Kubitschek, fato que ainda não foi refutado por nenhuma autoridade brasileira do domínio da cultura. Como pode o Brasil ter um Ministro da Cultura que não frequenta os nossos museus mais importantes? Como pode o reitor de uma universidade responsável pela administração de um museu nacional não frequentar com regularidade, com sua família, um museu nacional?

Foi possível notar, também, que da parte da UFRJ, até o momento ainda administrada pela mesma diretoria, cujos membros são filiados a um partido socialista radical, não foi apresentada ainda nenhuma justificativa razoável para que os repasses ao nosso Museu Nacional tivessem se reduzido em 90%, haja vista que o orçamento repassado àquela instituição universitária não se reduziu nessa mesma proporção de 90%. Além disso, conforme difundido no noticiário, teria contado aquela universidade com cerca de R$ 6 milhões apenas para investimentos em melhorias no último ano, dentre as quais se poderia ter incluído um sistema anti-incêndio para um acervo de história natural de maior valor em nosso País. Por outro lado, ficou comprovado também o imenso desprestígio que recaiu sobre o Ministério da Cultura, pois informado da situação crítica em que se encontrava o Museu, deixou de decretar, observando suas competências, que o Museu fosse transferido a mãos mais zelosas pela preservação de nosso acervo histórico.

Os legítimos proprietários daquele espaço, a Família Real brasileira, talvez tenham manifestado a mais triste reação de indiferença: em um contexto de persistente ressentimento pela ocupação do espaço que pertencia ao Império, debitaram a tragédia como apenas mais uma negligência dentre as muitas provas de ineficácia do sistema republicano de Governo. Ignoraram, talvez por desconforto, que o Palácio Imperial de São Cristóvão, como preferem denominar o espaço, tivesse ocasionalmente se mantido, durante as décadas anteriores, com migalhas de doações dos gestores que amavam o Museu ali sediado. Havia pesquisadores comprometidos em preservar aquele espaço que outrora havia pertencido aos jesuítas, entre 1567 e 1749. Li depoimentos de que a ex-primeira dama Ruth Cardoso chegou a reformar uma das salas com seu próprio salário; e que o Presidente Fernando Henrique teria mandado restaurar por duas vezes o teto do Museu Nacional, pelo fato de ter a UFRJ gastado os recursos em outra parte. Se bem parece ser igualmente verdadeiro que aquele Presidente, contudo,  não tomou uma ação enérgica para corrigir o desmazelo que denunciava. Sem protestar contra as autoridades, o herdeiro da Casa Real ofereceu, logo após o incêndio, para a revolta de muitos cidadãos brasileiros, ajuda para recompor o acervo com itens pessoais de D. Pedro II mantidos pela família. A opinião pública reagiu com imediata revolta, porque não parece de modo algum aconselhável que se coloque sob a responsabilidade das autoridades atuais mais itens valiosos da nossa história.

As tratativas do setor privado e do Banco Mundial com a UFRJ para restaurar e renovar o Museu foram trazidas à baila como uma oferta distante que não prosperou há cerca de vinte anos, por meio da iniciativa intermediada por um empresário da família Klabin. Conforme a Reitoria da UFRJ, datava de duas décadas e não teria tido seguimento à época por suposta culpa de seus proponentes. Não esclareceu se deixaram de prosseguir nas tratativas porque  recusava a UFRJ a reformulação do formato de administração do Museu, desconsiderando opções de outras instituições de renome mundial, com modelo de conselho de administração ou de supervisão do Estado. Não explicou, tampouco, por que razão, sendo reitor e professor doutor, não conseguiu realizar telefonemas para retomar as negociações dessa oferta, quando os recursos públicos supostamente escassearam há alguns anos, ao invés de simplesmente abandonar a questão.

Num epílogo desse episódio de um enredo que certamente ainda irá se estender, o governo alemão anunciou, para o alívio da agonia em que se viu a população brasileira, uma doação no valor de 1 milhão de euros, ao mesmo tempo em que a Deutsche Welle publicou crítica aos ‘talibãs brasileiros’ que perpetraram tentativas de apagar a história e aniquilar o passado, em nome da construção de um futuro em conformidade com um ponto de vista partilhado por socialistas radicais. Não estariam de todo equivocados: pois em pleno século XXI, ainda é possível encontrar arautos que defendam as palavras de Brecht, segundo as quais devem ser tratados os dissidentes de opiniões socialistas com uma ‘boa bala e uma boa cova’, um pensamento enterrado juntamente com Stalin e com os milhões de cadáveres de um regime autoritário.

Mas o incêndio causou uma ferida moral no peito dos cidadãos e chegou a reavivar uma certa chama nacional, pelas reações emotivas que se pôde observar, sobretudo catalisada por aqueles cientistas e pesquisadores que desenvolveram atividades no Museu. Foram generalizadas as manifestações de inconformidade e o lamento da perda de uma parte da história significativa que guardávamos com muito carinho na memória, sobretudo em função de que o Museu fora a residência da figura de nosso Imperador, um naturalista e intelectual à frente de seu tempo. Todo estudante brasileiro dele se orgulha ao aprender sobre seu interesse nas ciências e sobre seu reconhecimento internacional, bem como por preconizar a modernização da sociedade e a abolição da escravatura. Nem todo estudante riu da vulgaridade de que D. Pedro I teria declarado a independência em uma mula e sob efeito de um laxante.

A direção da UFRJ ainda não se vê como responsável pelo incêndio, contudo; nem o Ministro da Cultura brasileiro parece achar que lhe teria cabido o papel de reorganizar atribuições, ou pelo menos firmar convênios específicos para custear a reforma e preservação do acervo, pois nenhum deles ainda renunciou aos seus cargos respectivos. Mais ainda, julgam-se aptos, após a destruição do maior Museu de história natural da América Latina, a administrar os recursos que serão canalizados para a finalidade de sua restauração. Isso apenas demonstra que o incêndio do Museu Nacional para eles não foi uma tragédia impensável de imensas proporções e que não o consideram um patrimônio tão importante: a falha não consistiria, ao ver deles, uma falência completa de agir, uma incapacidade intempestiva de administrar.  Argumentaram terem feito o melhor possível: e o melhor possível que fizeram foi a destruição total do Museu Nacional constatada.

O que leva uma parte da elite política brasileira a abraçar uma ideologia socialista na qual esse patrimônio teve menor valor que quebra-molas no campus, que rádios universitárias e outras intervenções que pouco ou nada têm a ver com a pesquisa científica e com a preservação de pesquisas históricas? Alguns quadros do partido socialista radical ao qual é filiada boa parte da direção da UFRJ lamentaram o ocorrido e se entende que um ou outro integrante desse grupo político defende que visitas a um museu sejam conferidos como um direito básico à população. Contudo na ausência de explicações mais pormenorizadas à sociedade, a terceirização da culpa e a explicação superficial de recursos escassos pareceu conformar uma expressão de cinismo. Leva também a questionar se ocasionaria algum tipo de cegueira administrativa misturar uma agenda política com aspectos administrativos, de preservação do patrimônio histórico e científico.  É possível imaginar, em outro país, que se manifestasse um partido politico para responder ou esclarecer ao público sobre um incêndio no museu nacional respectivo? Dificilmente.

De modo que é impossível deixar de perguntar como chegou a sociedade brasileira a tão triste ocaso de esperanças, ao deixar de preservar um passado valioso sob pretexto de pertencer a uma era escravista; de abandonar iniciativas científicas que produziram excelente imagem para o Brasil no exterior no passado, sob o pretexto subentendido de que seriam ‘datadas’. Ora, qual é o cientista relevante que nasceu fora do percurso de cheirar e investigar fichas e artigos em acervos? Além do Museu Nacional ter configurado um acervo notável e nos colocado como um País com pesquisas de ponta no século XIX, ainda que em poucos nichos, aquele era um espaço de nascimento de novos pesquisadores, de novas gerações de cientistas, de inspiração para novas gerações de artistas. Conforme o cientista e físico brasileiro Henrique Fleming (1), boa parte das grandes descobertas científicas foram ideias que ocorreram a jovens pesquisadores em idade inferior a 25 anos e dependem de circunstâncias de interdisciplinaridade. Era um local onde as crianças podiam despertar seu interesse por arqueologia, paleontologia, por classificar em categorias, descobrir novidades no passado, explorar o mundo a partir de um pequeno espaço seguro. Recebi numerosos relatos de gente com que hoje trabalho que cresceu brincando naqueles jardins, respirando os ares intelectuais de cientistas, antropólogos e historiadores circulando. Nele foram recebidas personalidades notáveis, como Albert Einstein, em 1925, convidado pelo então diretor Roquette-Pinto. O que levou a que tamanho acervo viesse a ser administrado por radicais que desprezassem o Museu como um capricho supérfluo da elite, e não por pesquisadores, socialistas que fossem, que estivessem preocupados em preservar e estender o acesso desse espaço público às crianças menos abastadas? Até mesmo os funcionários da limpeza tinham maior afeição ao Museu, quando contaram sobre uma ‘vaquinha’ realizada entre si para custear a limpeza do espaço.

Apesar de não pertencer às ciências naturais e de não ser carioca, eu me recordei, enquanto lia o noticiário, de quando frequentava religiosamente todos os dias a Biblioteca Municipal de minha cidade e com meus amigos visitávamos vez ou outra o pequenino museu geográfico e de história natural em Porto Velho. Apelidavam-me ‘astronauta’ porque me interessava por ciência e lia todos os volumes de Júlio Verne. Não havia nada mais delicioso que ocasionalmente devanear entre ossadas de animais que comprovavam que a Amazônia havia sido um pedaço do mar. Sem embargo, hoje mesmo não sendo uma cientista relevante da área e tido outro percurso, eu me julgo no direito de reivindicar esse espaço e o meu direito à memória, assim como semelhantes direitos aos meus filhos e às gerações seguintes. Como então supostamente professores e cientistas relevantes o suficiente para ocupar cargos de direção na UFRJ não reivindicaram gozar o mesmo direito a esse espaço, o direito a essa memória?

Recebi uma filmagem, há apenas dois meses, da Quinta da Boa Vista, e planejava levar meus filhos no final do ano, para manifestar apreço e apoiar a restauração do espaço. É uma lástima que encontraríamos hoje apenas os escombros. Meu caçula quer ser ‘cientista de DNA’ e ama dinossauros. Ainda não consegui dar a notícia a ele sobre essa catástrofe de proporção mundial. Talvez apenas lhe conte depois que o Museu vier a ser restaurado, e pelo momento tudo o que possa fazer é me colocar à disposição para trabalhar voluntariamente em meu tempo disponível para que isso ocorra. Havia visualizado quão alegre seria o momento dele constatar como era o Brasil há milhares de anos e percorrer os lindos jardins, arguir com eles como o nosso palácio imperial seria mais sóbrio e adequado que Versalhes e ouvir suas lamentações de que estaria mal conservado; mas terei de levá-los a outra parte. São muitos os pais que já não poderão fazer o mesmo que pretendia, e que certamente se encontram muito frustrados.

A notável antropóloga e pesquisadora do próprio Museu Nacional, Giralda Seyferth (1943-2017), talvez pudesse nos oferecer uma hipótese quanto à origem desse desdém pelos museus e pela história do Brasil, mesmo na suposta elite acadêmica, pelo modo com que se configurou e se constituiu a nossa civilização brasileira recentemente. Ela conta em um de seus artigos científicos que ‘entre 1937 e 1945 uma parcela significativa da população brasileira sofreu interferências na vida cotidiana produzidas por uma campanha de nacionalização que visava ao caldeamento de todos os alienígenas em nome da unidade nacional’, a qual ‘(…) englobava imigrantes e descendentes de imigrantes classificados como não-assimilados, portadores de culturas incompatíveis com os princípios da brasilidade(…), argumentando que a elite não corrigiu os erros cometidos no Império, permitindo que estrangeiros formassem núcleos isolados, quase imunes ao processo assimilador característico da formação social brasileira (…)’ (2). A iniciativa teria sido mal recebida por certos grupos.

Caberia não obstante recordar que era uma preocupação no domínio das políticas públicas que certas populações que migraram da Itália e de demais países estariam se desenvolvendo alheias às tradições que caracterizam a cordialidade e jeitinho do povo brasileiro, à sua afeição notória por guardar pequenas lembranças e registros do passado. Esse cenário poderia ser uma preocupação relevante hoje? Coloco apenas como uma hipótese. O socialismo italiano foi uma ideologia incontornável durante o processo de unificação sob Garibaldi e o que se sucedeu foi a sua ampla disseminação por décadas seguintes. Noto que muito do tom que encontramos nos partidos socialistas radicais brasileiros, os quais hoje tendem a negar nossa herança cultural, parece perceptivelmente originário desse arcabouço de pensamento dogmático e revolucionário italiano. Como lidar com os herdeiros desse pensamento fixo, de repetição ad nauseum de um discurso sobre uma realidade utópica que jamais chega, sobre um futuro de justiça social sem defeitos, e em cujo ínterim exige que o poder seja entregue sem questionamentos aos ‘camaradas’, os quais ‘sempre fazem o melhor possível?’. Como pode o pensamento científico da direção de uma universidade federal ser norteado por dogmas políticos do início do século passado, concebido em uma realidade de extermínio de massas? Como pode a ciência e a história prosperar lado a lado quando há precedência de ideologias e quando o pensamento crítico deve ser aplicado apenas aos outros, mas não a si mesmo? A herança cultural desses grupos socialistas radicais, os quais, observo, parecem liderados frequentemente por descendentes de imigrantes, é uma hipótese que não deveria ser descartada.

De fato, apenas para um elemento alienígena o local onde teriam sido assinados os documentos de eventos políticos de grande porte poderia ter um valor secundário: ao brasileiro que descende de escravos, ao brasileiro das famílias tradicionais e mais antigas, ao povo brasileiro raiz, esses espaços têm um valor sagrado, uma conotação mítica. Soa, aliás, mesquinho que os movimentos de esquerda radicais acusem de machismo e misoginia quem valorize esse passado conservador, como se pudessem ostentar credenciais menos machistas e menos misóginas que os conservadores aos quais se opõem. Fato é que ali teria assinado a declaração de Independência Dona Leopoldina, nomeada por D. Pedro I chefe do Conselho de Estado e Princesa Regente Interina do Brasil, aconselhada por José Bonifácio, oficialmente a primeira mulher a assumir o papel de chefe de Estado no Brasil, e também Princesa Isabel, quando assinou a Lei Áurea.

Por outro lado, diante da inércia amplamente aceita por parte das correntes socialistas radicais em administrar a manutenção e preservação desses acervos,  uma doutrina de direita veio se interpor ao pensamento esquerdista dogmático, sobretudo baseada nos princípios caros à democracia americana, alegadamente liberalista, à qual conviria o princípio da subsidiariedade, segundo o qual não caberia ao Governo exercer iniciativa ou liderança exceto em matéria de defesa e segurança. Aliás, dentro desse arcabouço de pensamento está o princípio do ‘melting pot’, conforme o qual os imigrantes deveriam adaptar-se, tornar-se como a maioria da sociedade, adotar como denominador comum o modo de vida supostamente comum a todos, deixando tanto quanto possível para trás aquilo que os tinha cunhado até então, um princípio o qual o jornalista alemão Peter Philipp muito bem criticou há alguns anos, e no qual se supõe que o modo de vida supostamente comum a todos seria o ‘American way of life’. Esse pensamento liberalista calcado na experiência norte-americana, diga-se de passagem, ignora igualmente por completo a realidade brasileira: a maior parte da população sequer tem propriedade privada! Como reclamar que a defesa da propriedade privada seja a função precípua de um Estado mínimo? No Brasil é impossível clamar uma doutrina liberal sem com isso restringir sua aplicação apenas à realidade que pertence a uma minoria. De modo que igualmente serviu o crescimento desse discurso liberal para ignorar reivindicações,  neutralizar seus efeitos e abominar a utilidade de uma política governamental que fosse pró-ativa, ou que ao menos estabelecesse uma parceria público-privada que visasse a preservação do Museu Nacional e de outras instituições similares.

O professor Alexandre Marcelo Bueno, doutor em semiótica, escreveu ainda que a problemática da incorporação de novas culturas tinha como motivação o ‘branqueamento da raça brasileira’ cujo princípio estava baseado ‘em uma suposta superioridade da raça branca em relação a outros grupos, especialmente os negros’ (Skidmore, 1976, p. 81-96; Seyferth, 1990, p. 18): (4). Como a noção de raça, naquele período, subsumia conceitos culturais como língua, religião, tradições e comportamentos, o projeto de branqueamento visava não apenas a transformação da sociedade brasileira em uma sociedade eminentemente branca, mas também dotada de traços culturais predominantemente europeus” (3). Isso explicaria, adicionalmente à preservação de nichos alienígenas, esses empréstimos que ora fazemos dos discursos da sociedade americana. Ora, é igualmente difícil deixar de perguntar como essa assimilação resultou no quadro atual, no qual nós parecemos não ter assimilado os hábitos e valores europeus de frequentar museus de história e de arte, os quais são mantidos pelos cidadãos europeus comuns indistintamente. Tampouco parecemos ter assimilado com  o empréstimo cultural do credo liberal norte-americano a iniciativa necessária de financiar museus em moldes de fundações privadas ou organizações sociais autônomas.

Fato é que a valorização da cultura se dá pelo povo que produziu, investigou esses artefatos e viveu a história que é preservada. Quando chegaram ao Brasil os europeus imigrantes, qual é a experiência que tinham neste País a preservar? É um pouco triste constatar que boa parte da academia brasileira e seus órgãos dirigentes, sejam aqueles ocupados por descendentes de imigrantes do início do século XX, sejam aqueles ocupados por profissionais que integram nichos nos quais predomina essa realidade psicológica, é composta por cidadãos que, nota-se, não foram assimilados pela civilização brasileira como tradicionalmente a entendemos. Não temeu essa elite acadêmica e governamental ignorar por completo a herança cultural e histórica da civilização brasileira anterior, preservada nesses espaços, supondo-a decreto uma realidade aristocrática e excludente, menos importante. Convenha-se que para essa realidade excludente é que se supunha, dentro dos conceitos e da mentalidade limitada da época, que seriam esses descendentes de imigrantes o antídoto. Supostamente deveriam esses profissionais liberais ter ocupado espaços nos quais a pesquisa científica e a melhoria dos acervos não se desenvolvia por causa de espaços fechados e grupos autocentrados das famílias tradicionais; estender o seu acesso; e não criar novos espaços excludentes, nem destruir por abandono o patrimônio que tínhamos bem ou mal acumulado!

Faço mea culpa na qualidade de também ser descendente de imigrantes, por uma cultura que, conheço bem, é excessivamente agrária e colona em detrimento da urbanidade que caracteriza as grandes cidades europeias. E também gostaria de manter a honestidade intelectual de expressar ter eu mesma minhas preferências político-partidárias. Contudo me parece que essas preferências deveriam ser exercidas por cada um em sua esfera pessoal e privativa: não caberia, em 2018, tolerar que sejam limitados os recursos para um museu que abriga ciência e pesquisa em história pelo alinhamento ou não com essas preferências políticas pessoais, pela orientação do jogo político, pois a descoberta de um fóssil, a coleta de um depoimento histórico perdido, a eletricidade, a biologia e a física, o espaço de aprendizado e de inspiração das novas gerações, o direito à memória, não pertence tudo isso a uma ideologia de direita, nem de esquerda.

Seria simplista supor que descendentes de imigrantes tendem a ignorar o valor do passado de uma história que os antecedeu? Talvez. Seria igualmente simplista considerar que descendentes de imigrantes teriam preservado e propagado nichos de pensamento socialista radical oriundo do continente europeu? Talvez. Mas fato é que esse patrimônio brasileiro não se encontra nas mãos de descendentes de famílias que detenham vínculos pessoais com a história. Por vezes ocorre nos Estados Unidos que os familiares dos signatários da Declaração da Independência até hoje zelem pelas casas e estruturas que compuseram os cenários da história americana. O mesmo não pudemos constatar para o Museu Nacional.

Uma outra hipótese possível para compreender a origem dessa grande tragédia consistiria naquela de que as autoridades governamentais intencionalmente teriam desvalorizado a Quinta da Boa Vista em função das aspirações políticas da Família Real brasileira, a qual permanece participando ativamente da vida política e cultural brasileira. Contudo o Palácio dos Papas, por exemplo, foi destruído após a invasão de tropas napoleônicas, mas posteriormente transformado em Museu, em 1906, restaurado e mantido pela prefeitura de Avignon. É possível hoje até mesmo notar algumas referências modernas na restauração em detalhes nos arcos que não haviam à época de sua construção, como a Torre Eiffel, e estruturas antigas foram recuperadas, com o que se tem atraído um imenso público durante o Festival de Teatro e de Poesia todos os anos. Os visitantes adentram o mesmo ambiente em que circularam autoridades do Vaticano, pisam nas arenas nas quais decidiam os Papas; e as coleções recebem hoje muito maior atenção e pesquisa nas curadorias presentes do que à época em que foram destruídas.

O governo francês, republicano, certamente jamais se acometeria do ridículo delírio de supor que a conservação daquele espaço relevante tanto para a história papal quanto para a história da região poderia oferecer um risco a transformar a França em uma teocracia dirigida pelo Papa; que isso implicaria no risco de converter aquela região em um domínio papal à maneira da Idade Média. Por que supor que conservar a Quinta da Boa Vista poderia favorecer o retorno do Brasil Império, do protagonismo político monárquico? Os integrantes da Casa Real, apesar de terem defendido uma monarquia parlamentar em 1995, pertencem a este tempo, e não à fase imperial; não arquitetaram golpes políticos ou contra-revoluções, nem deixaram de participar da esfera democrática, nem de votar ou de aportar suas contribuições à sociedade, quando o voto do cidadão optou pelo regime presidencialista.

Além disso parece extremamente autoritário e inconveniente a uma democracia supor que apenas uma específica arte moderna deve ser conservada, apenas certas linhas de pesquisa correspondentes à agenda de um grupo preservadas. Na França há espaço para o antigo e para o moderno; assim como na Alemanha, nos EUA, no Canadá, em todos os países desenvolvidos. Por que não no Brasil? Não deveria uma nação relativamente mais multicultural que as demais  envidar maiores esforços que os outros países para preservar a diversidade dos aportes culturais e científicos? Ou a diversidade é um conceito fechado, definido e restrito apenas a um nicho de pensamento recente de gênero, de raça?

Do mesmo modo que o Estado laico francês restaurou o Palais des Papes e conservou seus túmulos, seus espaços históricos, suponho que podemos fazer o mesmo. Seria conveniente recuperar a visão primordial de um paraíso terreno que avistaram os portugueses, o tom inocente de nossas imagens indígenas, as melodias das canções negras que invadiam nossos sonhos, as linhas bem delineadas dos arquitetos franceses, em um esforço de reconstrução da Quinta da Boa Vista. Se é verdade que não se pode voltar no tempo para refazer as pesquisas que foram destruídas, é possível encontrar cópias dos livros que se perderam, e reconstitui-los em um acervo digital no qual as crianças possam acessá-los com maior facilidade de seus tablets e smartphones; criar percursos nos quais possam os visitantes seguir os passos de cientistas renomados que ali estiveram e de um Chefe de Estado que está vivo em nossa memória coletiva. Sem dúvida não há razão para desesperança e abrem-se novas possibilidades de valorização do espaço, fosse menor a inércia de nossas autoridades em tomar medidas enérgicas de afastar quem não ama aquele espaço e conferi-lo a mãos zelosas; ainda que sejam os descendentes da própria Família Real, que afinal conta com cientistas é a parte mais interessada em preservar o acervo! É preciso conferir alguma resposta ao cidadão brasileiro e do mundo que se viu tolhido de tesouros de domínio público.

Nesse contexto de remediar indisposições e atritos políticos que surgiram quase simultaneamente, haja vista a que o incêndio no Museu Nacional foi sucedido por um momento político sensível, em decorrência de um atentado a um dos candidatos a Presidente da República, parece mais necessário do que nunca intensificar intercâmbios entre Portugal e o Brasil, bem como com os demais povos com que mantivemos proximidade desde tempos primordiais. Pois foi meio aos laços de amizade e familiares lusos-brasileiros que se concretizou a história que ainda resta desde a invenção de nosso País, as iniciativas de arte e de pesquisa que não foram desprezíveis no passado. Também com a França e a Espanha  construímos pilares de nossa civilização brasileira, de nossas letras, de nossa arte e de nossas iniciativas científicas. Foi uma pesquisadora francesa que conferiu o fóssil humano mais antigo daquele acervo.

Nessas parcerias seria mais do que conveniente reconfigurar os espaços acadêmicos com exigências e constrangimentos, restrições a quem porventura venha a valorizar uma agenda política, seja de esquerda ou de direita, em detrimento da preservação do patrimônio público conjunto, com a finalidade de não conferir convites, projetos nem as prerrogativas necessárias para cargos de diretoria a quem não tenha uma vocação científica que se sobreponha a doutrinas. O patrimônio que mantemos no Brasil tem um valor extrapola a esfera nacional, pois a ciência e a história natural são domínios sobre os quais se debruçam pesquisadores de todo o mundo. Isso certamente o Brasil não poderá fazer sozinho, e bem poderia contar com a cooperação da comunidade científica internacional.

Estas, é claro, são ponderações pessoais que me ocorrem na qualidade de cidadã inconformada com essas ocorrências, mas sobretudo com a inércia de reações, as quais compartilho com o leitor. Parece-me que configuram um ponto de vista da esfera doméstica  que poderia ser levado em consideração por especialistas de instituições acadêmicas no Brasil e no exterior, as quais contam com autonomia para debater e desenvolver suas atividades científicas e acadêmicas. Seria mais frutífero que as comunidades acadêmicas e científicas atuassem conjuntamente do que esperar do Governo que as atuais juntas diretivas reflitam sobre seus equívocos e reformulem seu pensamento sobre prioridades. Isso poderia oferecer um resultado mais rápido para salvaguardar o direito à memória e os espaços de descoberta para as gerações futuras do que repensar estratégias nacionais de assimilação desses nichos alienígenas, para que passem a desfrutar da civilização brasileira, com suas virtudes e defeitos.

Para aliviar uma discussão pesada, trago ao leitor, por fim, alguns poemas ligeiros. Não há nada mais importante para os brasileiros que preservar lembranças e valorizar sua identidade de alegria, de informalidade e, arriscaria dizer, até mesmo de um pouco da melancolia que lhe caracteriza. Afinal, apesar do Brasil ser imenso em recursos e ostentar uma vegetação luxuriante, a maior riqueza que temos e que não se esgota de recursos é a nossa cultura.

Pindorama – Ana Paula Arendt (5)

MELHOR nação que Roma
melhor país do mundo
melhor que bela soma
melhor que céu profundo.
Pindorama, minha pátria querida,
em que as flores pendem tranquilas
em ramas pudicíssimas de botões perfumados
derramados sobre meus cabelos.
Pindorama, minha pátria que brilha
nas copas das sibipirunas a luz desvencilha
crivada do fanal em dourados fachos
repousados em meus luzeiros.
País onde os homens são livres!
E as mulheres também.
Mundo em que homem sensível
faz mulher gostar de alguém.
Pindorama, terra de quem foi vencido
e vendido, viveu decepcionado
terra que me deu abrigo
terra do meu homem amado.

Singradura – Ana Paula Arendt (6)

VIVER é bem difícil.
Sei que é difícil também dizer.
Dizer que se é livre é um vício
Dizer que se é livre é padecer.
A liberdade é difícil.
Mas difícil mesmo, é não ser.
Ver da luz o mesmo início,
Se jogar no precipício,
Dos mil sóis que me inflamam
Ter na pele o mesmo viço,
Ver-se menos que o patrício,
Ter a voz dos que se amam.

Civilização brasileira – Ana Paula Arendt  (7)

SE O ASFALTO fosse leito
e o carro fosse barco
se homem fosse homem
e mulher fosse quem tem parto

se o menino corresse no mato
e pegasse peixinho no rio
se carinho anulasse mau-trato
e tapioca fosse plantio

ah, se a casa fosse itinerante
e cada dia uma nova alvorada
se você fosse o mesmo amante
e as crianças viessem em revoada.

Se a madeira não quebrasse
e o amor durasse pra sempre
se o sono selasse um enlace
e a gente fosse pra frente…

(1) ‘Interdisciplinaridade’. In: REVISTA USP, São Paulo, n.39, p. 12-17, setembro/novembro 1998.
(2) ‘A assimilação dos imigrantes como questão nacional’. In: Mana vol.3 n.1 Rio de Janeiro Apr. 1997.
(3) ‘Opinião: Integração não quer dizer assimilação’. Deutsche Welle – 14.02.2008. <https://p.dw.com/p/D7e4 >
(4) ‘Língua, imigração e identidade nacional: análise de um discurso a respeito da imigração no Brasil da Era Vargas’. In: Estudos semióticos. issn 1980-4016 semestral – Vol. 9, No. 2 p. 35-43.
(5) ‘A criação de Pindorama’. Só Livro Bom Editora, Brasília: 2016.
(6) ‘Callista’. Só Livro Bom Editora, Brasília: 2016.
(7) ‘Poesia Reunida’ (2014-2018). Só Livro Bom Editora, São Paulo: 2018, no prelo.

Imagem: Rio Total.

Uma resposta para “Assimilar a civilização brasileira. Por Ana Paula Arendt.”

  1. Ulysses Freitas disse:

    Texto longo, mas ótimo de se ler. Comunicações civis são excelentes de se ler.gostei mesmo!

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