As tantas flores do Tejo.

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O Sr. Marcondes Neto me convidou a escrever uma coluna mensal para o Observatório da Comunicação Institucional. Fiquei muito feliz em que ele partilhasse da sensibilidade a um sentimento por Portugal que expressei no poema ‘Mátria lusa’, o qual fui pensando enquanto caminhava por Lisboa, e escrevi numa pastelaria que bem poderia ser uma padaria paulista, A Açoriana. Eu me encontrava em uma breve escala de trânsito para a África, onde eu trabalho hoje, e aproveitei para visitar alguns amigos, provar a ginjinha, experimentar distintas cores de luvas com o Sr. Carlos, na Luvaria Ulisses, respirar na Quinta do Bom Sucesso, em Loures, e decidir qual é o melhor bolinho de bacalhau de Lisboa. Conto que é muito agradável que esse passeio tenha como panorama um país onde a poesia é um ofício reconhecido, no qual a contribuição dos poetas é difundida nos cafés e homenageada nas livrarias como um ato patriótico de preservação da nossa língua materna.

É curioso, porque o nosso poeta brasileiro Olavo Bilac poderia ter escolhido nos falar das tantas flores do Tejo, simples e vibrantes; mas preferiu dizer que o português é a última flor do Lácio, inculta e bela. Subentendido nesse verso que existiria um modelo, um padrão erudito, o latim, do qual nós nos desviamos e pelo qual necessitamos nos justificar. Portanto é ainda mais milagroso, eu pensava, enquanto admirava as vitrines de chapéus, que se note hoje tantas homenagens a Camões, Pessoa e Florbela Espanca, é magnífico que em Portugal se tenha com tanta alegria tomado em mãos o estandarte de defender a nossa língua como defendemos a nossa pátria: do modo como ela é, e não como o Latim gostaria que fosse.

Aqui na África me encontro em uma região onde se fala predominantemente o francês; tornou-se há alguns séculos uma língua importante sobretudo por facilitar e conciliar o diálogo entre grupos políticos distintos. Ao menos os franceses facilitassem e temperassem o diálogo entre grupos políticos no Brasil! Seria algo estupendo, regado a vinhos e queijos deliciosos, visitas a Paris. Mas deixemos aos franceses apenas o que há de bom no Brasil, para que não se cansem de nós. Prossigo dizendo que a fluência e erudição dos africanos ocidentais francófonos me impressionou: na França não ouço tantas fórmulas de cortesia bem aparadas e um vocabulário nos livros de literatura de precisão cirúrgica. Contudo, ainda que falem o francês melhor que os franceses, a humildade e deferência deles é imensa. A África é grande sobretudo de espírito! É para mim um gosto entender paulatinamente o que funciona e o que não funciona em língua francesa, como aprendemos nas escolas o inglês e o espanhol, se bem também na África se encontra o português falado com orgulho, em São Tomé, Guiné Bissau, Cabo Verde, Angola e Moçambique, entre tantos outros.

Existe uma concorrência entre o português, o inglês e o francês nesta região? Em cada país se fez uma escolha de uma língua oficial europeia, com o que se evitam as fricções estrangeiras em nível doméstico, suponho, e essa diversidade regional de idiomas europeus, paralela à profusão de línguas tribais, acaba desempenhando funções importantes para o interesse e para a dinâmica do desenvolvimento africano. A existência de opções permite que a relação com o país originário da língua em uso não se debilite pelo colonialismo, nem se corroa com imposições.

No Brasil, nós repetimos que não existe colonialismo, mas é preciso vigiar para não obter ganhos em contradição com a nossa cultura de solidariedade, sobretudo quando sabemos haver no Brasil investimentos de toda parte do mundo. É um pouco triste, ainda, constatar que governos e empresas nem sempre combatem de modo eficiente o racismo, desinteressando-se pela África facilmente. Parece-me que muitos projetos permanecem na superficialidade por causa do preconceito e da falta de compreensão de que também as populações negras, assim como os povos europeus antigos, gostam de manter uma relação mais próxima com a natureza, longe dos grandes escopos de projetos milionários. Isso não diminui a relevância estratégica de cada país africano, nem sua contribuição para o mundo. Aqui no Togo, por exemplo, há um ganhador do Prêmio Kyoto e um ganhador do Grande Prêmio Literário Afrique Noir, e a economia cresce a mais de 5% há mais de dez anos. Mas uma pesquisa do Dr. Pedro Jaime Coelho Jr., ‘Executivos negros’, recentemente em evidência no Brasil, traz histórias terríveis da experiência de profissionais negros nas grandes corporações brasileiras, as quais estou certa de que se estendem, ainda que em menor medida, também ao serviço público. Suponho que o racismo é uma forma agravada de incompreensão. Pois no Brasil não somos um povo caucasiano e branco, para levantar a plausibilidade da mestiçagem, e entendo que nossa cultura lusa tampouco deixa de ter raízes imensas e profundas no continente africano.

Isso me leva a pensar novamente na culpa que carregamos conosco de sermos nós mesmos e na necessidade de nos justificar buscando referências em outra parte, imitando modelos externos que em última instância, nos remetem a Roma. O curioso é que tanto o português, o francês e o inglês tenham algo em comum: todas eram línguas bárbaras inaceitáveis. O grego Heródoto não descrevia os bárbaros de modo pejorativo, é verdade. Mas é bom lembrar que, na cultura romana, o ímpeto expansionista do latim tinha origem nessa divisão básica, a língua ‘correta’ e as línguas desses povos desorganizados de exércitos tribais, os galeses, os portugueses, os espanhóis, os ingleses e escoceses, entre outros, os selvagens que precisavam ser civilizados pelo Senado Romano, aqueles homens de latim sofrível e mulheres pouco sociáveis, renitentes em seguir suas fórmulas institucionais esclarecidas e o credo eleitoral rotativo, o qual garantia a preponderância militar romana em longas extensões.

O nosso raciocínio, contudo, jamais foi romano: as nossas línguas, após emprestar em parte sua estrutura e seu vocabulário do latim, permaneceram como um critério distintivo de identidade. Sobrepujaram a lógica imperialista. Vieram nossas línguas de povos habituados a permanecer na sua pequena vida cotidiana, de fazer o vinho e o azeite típicos de cada terreno, limitada pelo modo de ser familiar, cantando as particularidades do rio e do mar que os banha… O tempo transcorrido pelas notícias de casamentos, pelos folhetos e disputas dos principados de cada região… A vida de cada uma dessas tribos vistas como bárbaras pelos romanos era muito afeita à terra, à localidade, aos gestos simples.

Podemos imaginar que era algo sem dúvida muito glorioso, ouvir sobre as grandes batalhas ganhas pelos generais iluminados e os discursos dos senadores em Roma, ser promovido e premiado com uma viagem para conhecer o esplendor romano, e certamente foi por causa desse sentimento de obrigação de grandiosidade que a França, Portugal, Inglaterra e demais países se sentiram impulsionados a estabelecer não apenas o comércio, mas também a reproduzir fórmulas expansivas à maneira dos romanos. Contudo não somos romanos: esse modelo colapsou. Era preciso respeitar essa necessidade de desenvolver e de criar na província, nas diversas cidades italianas e das outras regiões, e a arrogância romana classificadora em distinguir cidadãos de primeira categoria, de um lado, com base no nível de absorção de uma cultura auto-referenciada, e os bárbaros, de outro, conduziu o latim a se tornar, como alguns dizem, uma língua morta, ou muito restrita aos estudos clássicos. O que vive hoje do latim? Os ritos anotados da biblioteca de comunhão católica. E as fórmulas de justiça consagradas à verdade.

No Brasil, nós temos vários estados, cada qual com seus hábitos, seus times, seus costumes e sotaques. Felizmente cada um tão amplo quanto um país da Europa, e não faria o menor sentido querer expandir ou transportar uma cultura inteira para outros continentes, quando nem dentro do país são consensuais, seus costumes difusos. E dispomos de tão imensa fronteira para defender do crime e do narcotráfico, de tantos problemas sociais e dilemas de identidade… A tranquilidade da África é um consolo ao espírito.

Contudo nos organizamos ocasionalmente ao redor de nossa língua portuguesa, como nos reunimos ao redor de nossa mãe, para lembrar dos grandes feitos, dos nossos versos, da nossa história. Quando essa convergência acontece envolvendo outros países da comunidade lusófona, e sob os auspícios de Portugal, isso acaba nos trazendo novas oportunidades de cooperação e de ação conjunta. Com maior facilidade, em tese, por não haver a barreira da língua.

Contudo lembremos que também em toda a Europa, e em parte da África e da Ásia, se falava latim, e isso não impediu que muitas iniciativas se frustrassem e que ressentimentos se instalassem. É preciso que a nossa língua transmita um sentimento que nos pertença e uma ideia que inclua o interlocutor. Uma diferença que seja uma novidade, um acesso suficiente para contemplar as joias da nossa poesia… Uma cultura aberta que do interlocutor receba igualmente um aporte a ser preservado e difundido. Talvez esse seja um caminho para que a lusofonia permaneça não apenas viva, mas também vibrante; para que bem possa a língua portuguesa produzir o mesmo encantamento que as demais línguas produzem em nós.

A. P. Arendt. As coisas simples da vida.

OBS.: Este artigo representa a visão e opiniões de sua autora e busca estar em consonância com os princípios e com os valores da Política Externa Brasileira.

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