Passada a Copa do Mundo... quem será capaz de entregar?

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Deu n’O Globo de 17/07/2014 – P. 17 – a reflexão muito oportuna do cientista político Antônio Carlos de Medeiros, repercutindo o economista João Manuel Cardoso de Mello, que, no jornal Valor Econômico de 13/06/2014, dissera que “o grande problema brasileiro é uma desordem político-institucional”. Nós, deste OCI, concordamos inteiramente.

A íntegra:

Quem será capaz de entregar

Passada a Copa do Mundo, o desafio para os candidatos presidenciais será começar a mostrar, com capacidade de convencimento do eleitorado, quem terá capacidade de entregar. Acima de tudo, o eleitorado quer mais e melhores serviços públicos. Com saúde, segurança, educação e mobilidade quase sempre no topo das listas.

Os temas econômicos — inflação, crescimento, câmbio, juros — serão importantes. Mas, desta vez, no lugar da frase “É a economia, estúpido”, surgirá a indagação: “Quem vai entregar o quê?” Nestas eleições, o discurso político tradicional não deverá ter capacidade de convencimento.

Serão eleições curtas. Praticamente o tempo do horário eleitoral gratuito, a partir do dia 19 de agosto. Com o nível de emprego ainda em bom patamar, os brasileiros estão mais focados na qualidade dos serviços públicos. Querem saber qual projeto de país vai conseguir demonstrar competência para formular e executar formas críveis de melhorias nos serviços.

O que não é simples assim. Porque não basta desenhar as melhores políticas públicas. É também fundamental criar as condições para um processo factível de implementação destas políticas.

Recentemente, João Manuel Cardoso de Mello foi cirúrgico ao afirmar que o grande problema brasileiro “é uma desordem político-institucional” (“Valor”, 13 de junho de 2014).

Vejamos: sistema partidário fragmentado, sistema eleitoral que não produz legitimidade e proporcionalidade adequada, aumento do número de ministérios e da burocracia pública, judicialização da política, proliferação de órgãos de controle que não conversam entre si e muitas vezes produzem paralisia decisória, grandes problemas estruturais que impedem estratégias de longo prazo e emperram as máquinas públicas.

Tudo somado, um sistema político-institucional que contém, intrinsecamente, o vírus permanente da ingovernabilidade.

Tudo isto aponta, outra vez, para uma agenda de reformas e para a (re)legitimação do poder político, a partir da voz das urnas e da convalidação de um programa de governo a ser escrutinizado no processo político-eleitoral.

Só com a (re)legitimação do poder político e com a tessitura de novos consensos sobre os rumos do país se poderá ter força política e capacidade gerencial para que a coalizão vencedora implemente em 2015, e depois, uma nova agenda para o Brasil. Para buscar as mudanças desejadas e esperadas pela sociedade brasileira.

Assim, em ambiente democrático e com demandas crescentes por qualidade dos serviços e por crescimento econômico, o novo poder incumbente vai precisar ter capacidade política para governar com o Congresso, o pacto federativo, os movimentos sociais, as corporações empresariais, as centrais sindicais.

Ter capacidade de concertação (conciliação). Preservar as conquistas dos últimos 20 anos, mas corrigir os rumos, com mais e melhores serviços e crescimento econômico. É uma tarefa gigantesca e é por isso que já se aponta que 2015 será um ano de ajustes e reformas. Um ano difícil.

As pesquisas de opinião e as manifestações das opiniões da sociedade, tanto na mídia tradicional quanto na mídia digital, mostram a baixa possibilidade de o discurso político tradicional dar conta das expectativas neste momento histórico.

No decorrer do processo político-eleitoral, principalmente na disputa presidencial, vai ser necessário mostrar capital simbólico e capital político para conduzir um processo político com cara de concertação. Para ter capacidade de entrega. Isso significa que as eleições presidenciais poderão ser decididas nos detalhes, para usar o jargão do futebol.

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