Jornalismo profissional em tempos de crise. Por Carlos Fernando Lindenberg Neto.

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Pelo telefone, nas já famosas conversas gravadas, o ex-presidente Lula esbraveja contra jornais, revistas e emissoras de televisão. Pede que o ministro da Fazenda jogue a Receita Federal em cima das empresas de comunicação. Nas ruas, manifestantes protestam contra a “mídia golpista”. Alguns mais extremados agridem repórteres. Por outro lado — acreditem! —, telespectadores reclamam que o noticiário está dando muito espaço aos manifestantes governistas e não se conformam com a transmissão ao vivo do pronunciamento de Lula após a condução coercitiva ou da cerimônia de sua posse como chefe da Casa Civil.

A crise sem fim, com torcidas dos dois lados, colocou em primeiro plano o papel do jornalismo no país. É hora, então, de lembrarmos uma singela máxima da atividade jornalística: “Não se briga com a notícia”. E o que não tem faltado nesses últimos tempos, convenhamos, é notícia.

A velocidade da crise, que nos cansa e nos causa agonia, se dá numa vertigem com dimensão histórica que o jornalismo tem por obrigação cobrir. A grande notícia de um dia, daquelas que levariam tempos para ser digerida e analisada, é logo atropelada por outra notícia ainda mais forte, de maiores impacto e consequências.

Jornalistas vêm trabalhando mais do que nunca para dar aos cidadãos a visão mais abrangente possível da realidade. Porque é exatamente esse o papel do jornalismo: noticiar os fatos da forma como eles se dão, de modo a que as pessoas tenham a apreensão da realidade. Se as delações premiadas acontecem, se a Justiça divulga o que apura, se há manifestações populares contra e a favor do governo, cabe ao jornalismo levar tudo isso à sociedade.

Sabemos que há setores da sociedade brasileira que há muito tempo gostariam e até atuaram para que houvesse algum tipo de controle sobre o exercício do jornalismo da forma como ele tem sido feito no Brasil após o fim do regime militar. Até agora, não obtiveram sucesso, graças ao espírito democrático que vem consolidando nossas instituições desde a Constituinte de 88.

Outros setores cobram postura agressiva do jornalismo diante dos mandatários do poder e de seus partidários, na linha da célebre definição de Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. A frase é boa e espirituosa, mas não passa disso.

Mesmo sendo obviamente passível de falhas, como toda atividade humana, o jornalismo deve sempre perseguir o equilíbrio e ser exercido com boa-fé, dando aos fatos a dimensão que eles merecem.

O jornalismo profissional é essencialmente diferente do jornalismo engajado e panfletário dos blogs chapas-brancas que hoje proliferam na internet, custeados por recursos públicos, ou seja, recursos dos cidadãos, o que é revoltante e condenável. Essas são fontes irresponsáveis, que alimentam estridência nas redes sociais.

Nas redes sociais, criam-se torcidas de grande fúria e agressividade, e o jornalismo profissional deve sempre buscar distanciamento dessas disputas emocionais e partidárias. Pelo contrário, deve ter todo o empenho para noticiar a inteireza dos fatos e oferecer as diferentes interpretações sobre esse fatos. Opiniões são muito bem-vindas no ambiente jornalístico, mas desde que caracterizadas como tal. Ao lado do noticiário, elas ajudam as pessoas a terem uma visão crítica da realidade em que vivem, e de terem as suas próprias opiniões.

Poucas vezes no Brasil a liberdade de imprensa teve oportunidade tão evidente de comprovar, como tem ocorrido atualmente, a sua importância essencial para a democracia, para o debate livre e transparente, para a vida das pessoas. Ganhou um imenso valor a informação jornalística de qualidade, apurada e editada com profissionalismo, seja no papel, no digital, nos noticiários da televisão e do rádio.

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Já foi dito que “um bom jornal é uma nação falando consigo mesma”. Podemos ampliar esse conceito para o bom jornalismo. É o que temos hoje no Brasil, que atravessa uma crise indesejada por todos, mas que, até para ser ultrapassada, precisa ser noticiada com a grandeza que tem e dentro do máximo equilíbrio.

Temos hoje um extraordinário jornalismo em atividade, cumprindo a sua missão, levando às pessoas os fatos como acontecem e trazendo à luz os fatos que muitos gostariam de manter na escuridão. É para isso que existe o jornalismo numa sociedade livre e democrática. É assim que continuará sendo feito em nosso país.

Carlos Fernando Lindenberg Neto é presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Este artigo foi publicado no jornal O GLOBO do dia 22/03/2016.

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